A Amazônia perdeu 693 mil hectares de vegetação em 2025, o menor volume anual desde o início da série histórica, em 1985. O número consta do novo levantamento de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira (14).
Do total, 92% — ou 639 mil hectares — era vegetação primária, nunca antes alterada. Os 54 mil hectares restantes correspondiam a vegetação secundária, já modificada pela ação humana.
Recorde de baixa não apaga quatro décadas de perda
Bruno Ferreira, pesquisador do Imazon e do MapBiomas, afirmou ao g1 que 2025 teve a menor área de destruição de vegetação nativa de toda a série, somando formações florestais, campos, savanas e vegetação secundária. O resultado acompanha a tendência de queda registrada pelo Prodes, o monitoramento oficial por satélite.
Para ele, a coincidência entre as duas bases não permite atribuir a redução a uma única medida, mas reforça o peso das políticas públicas na leitura das tendências. Em maio, outro recorte do MapBiomas, o Relatório Anual do Desmatamento, já havia mostrado queda de 23,5% na Amazônia em 2025, ano em que o país ficou abaixo de 1 milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde 2019.
O alívio anual, porém, é um ponto numa curva longa de perdas. Entre 1985 e 2025, o bioma perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa. No mesmo intervalo, a área convertida para usos humanos cresceu 492% e chegou a 74,6 milhões de hectares, enquanto a agropecuária avançou 440%.
Pastagem é o destino de 77% do que cai
Em 2025, a agropecuária ocupava 65,3 milhões de hectares, 15,5% do bioma. O pasto responde pela maior fatia: 50,8 milhões de hectares, expansão de 556% em quatro décadas. Em média, 77% das áreas desmatadas tiveram a pastagem como primeiro uso registrado. A agricultura saltou de 161 mil hectares em 1985 para 8,6 milhões. A mineração se multiplicou quase 14 vezes, para 440 mil hectares, e 47% desse total foi aberto nos últimos dez anos.
Onde a estrada chega, a floresta recua
O cruzamento dos mapas anuais com as bases de estradas do DNIT e do OpenStreetMap — incluindo vias fora da malha rodoviária oficial — expôs um padrão nítido. Até cinco quilômetros das vias, a agropecuária ocupa 40,2% do terreno, ou 63 milhões de hectares; num raio de 20 quilômetros, cai para 26,7%. A vegetação nativa faz o caminho inverso: 56,7% na primeira faixa e 69,3% na segunda.
O contraste reaparece nas grandes rodovias. No raio de 20 quilômetros da BR-364, a agropecuária chega a 43,5%, e na BR-163, a 39%. No entorno da BR-319, a vegetação nativa ainda cobre 86% do território. Segundo Ferreira, a abertura de ramais e acessos secundários conecta frentes de desmatamento, exploração de madeira e ocupação irregular.
Áreas protegidas resistem, o entorno não
Dentro de territórios indígenas, unidades de conservação e terras quilombolas, a vegetação nativa representa 98% da cobertura — nas Terras Indígenas, 98,9%. Na faixa vizinha a esses territórios, a agropecuária cresceu 561% desde 1985 e ocupa 31% da área analisada. Nos imóveis rurais, a atividade alcança 38,8%; em terras públicas ou sem registro fundiário georreferenciado, 21,5%.
A geografia da perda também é desigual. Nos municípios de Amazonas, Acre e Rondônia, a vegetação nativa recuou 16% em 40 anos, com 2,7 milhões de hectares derrubados só na última década. Por estado, o Amapá lidera em conservação (95,5%) e o Tocantins fica na ponta oposta, com 24,6%. A trajetória de queda tampouco é linear: em setembro, o Imazon apontou que o desmatamento na Amazônia Legal subiu 2% entre janeiro e agosto de 2026, ainda que em patamar historicamente baixo.