Um projeto agroflorestal em Tomé-Açu, no Pará, está transformando o cultivo de dendê na Amazônia ao integrar a palmeira com espécies como açaí, cacau e andiroba.
O modelo, batizado de SAF Dendê, eleva a produtividade em até 38% por planta, recupera solos degradados e reduz a necessidade de fertilizantes químicos.
O Pará é o maior produtor brasileiro de dendê — matéria-prima do óleo vegetal mais consumido no mundo, presente em alimentos industrializados, cosméticos e biodiesel.
Da pimenta-do-reino ao dendê agroflorestal
A história agrícola de Tomé-Açu é marcada por ciclos de esgotamento e reinvenção. A vocação produtiva da região remonta à chegada de imigrantes japoneses nos anos 1920. Nas décadas seguintes, o município viveu o auge do cultivo de pimenta-do-reino, o chamado “diamante negro”.
O monocultivo intensivo, porém, cobrou seu preço. O solo foi se esgotando e a fusariose — doença causada por fungo — devastou as plantações e forçou os produtores a repensarem o modelo. O dendê entrou em cena nos anos 1980, inicialmente também em monocultura.
Com o tempo, agricultores da região passaram a incorporar saberes tradicionais da Amazônia, diversificando os cultivos. Esse acúmulo histórico pavimentou o caminho para o SAF Dendê: um sistema que combina a palmeira com outras espécies e reproduz, intencionalmente, o funcionamento da floresta.
Diferente do monocultivo convencional, o modelo diversificado melhora o equilíbrio ambiental, reduz a exposição a pragas e doenças e torna a produção mais resiliente a variações climáticas e de mercado. O próprio sistema passa a fornecer nutrientes ao solo de forma natural, diminuindo a dependência de insumos externos.
A aposta na fertilização natural ganha relevância estratégica num país que importa 88% dos fertilizantes que consome — contexto que torna a autonomia nutricional do SAF um diferencial não apenas ambiental, mas econômico e logístico.
Imagem global e oportunidade local
Apesar de ser o óleo vegetal mais consumido no planeta, o dendê carrega uma imagem negativa no cenário internacional, sobretudo por sua associação ao desmatamento no Sudeste Asiático. Esse estigma abre uma janela de oportunidade para o modelo paraense: produzir com certificação de origem sustentável.
A indústria de cosméticos já demonstra interesse no dendê cultivado em sistemas agroflorestais. A origem rastreável e o perfil ambiental diferenciado tornam o produto atrativo para marcas que buscam ingredientes sustentáveis — um mercado em expansão global.
Os resultados em Tomé-Açu também reforçam que o aumento de produtividade não precisa vir acompanhado de expansão de área. Produzir mais por planta, em terra já cultivada, é exatamente o que a agenda climática demanda do agronegócio brasileiro — especialmente quando o bioma em jogo é a Amazônia.
O projeto representa ainda uma ruptura simbólica: demonstra que é possível conciliar escala produtiva com conservação, algo que o setor do óleo de palma raramente conseguiu provar diante da opinião pública internacional.
