Nenhum estado brasileiro atingiu a meta de vacinar contra o sarampo 95% das crianças menores de 2 anos com duas doses. Esse é o patamar necessário para impedir que o vírus volte a circular de forma sustentada.
O alerta chega quando países vizinhos já somam mais de 20 mil casos. Em entrevista ao g1, o diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti, citou cerca de 3 mil casos no Peru e uma situação de descontrole na Bolívia.
Por isso, o Ministério da Saúde reforça a vigilância e intensifica a vacinação em municípios do oeste do Amazonas que fazem fronteira com o Peru.
Paraná, Ceará e Minas lideram; Amapá tem o pior índice
O país tem hoje a melhor cobertura contra o sarampo desde 2016, mas a imunização completa com as duas doses da vacina tríplice viral, que também protege contra caxumba e rubéola, segue abaixo de 80%. Entre crianças de até 5 anos, a segunda dose chegou a 91% em 2024, ainda aquém da meta.
Em 2026, os melhores índices até agora são do Paraná (86,76%), do Ceará (86,69%) e de Minas Gerais (86,05%). Na outra ponta aparecem Amapá (63,59%), Pará (67,02%), Maranhão (69,66%) e Rio de Janeiro (69,74%).
Em 2025, Paraná (89,92%) e Minas Gerais (87,62%) também ficaram no topo, seguidos por Rondônia (84,56%) e Distrito Federal (84,03%). Pará (58,25%), Goiás (58,59%) e Amapá (63,02%) tiveram as piores marcas.
Uma dose garante imunidade de 94% a 96%. Com duas, a proteção passa de 97%. O ideal é completar o esquema até os 2 anos de idade.
Casos importados e cadeias curtas de transmissão
O Brasil recuperou em novembro de 2024 o status de país livre da circulação endêmica do sarampo, e o último caso autóctone ocorreu em junho de 2022, no Amapá. Mesmo assim, foram 39 casos em 2025 e pouco mais de 50 em 2026, segundo o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
A maioria dos casos deste ano se concentrou na capital paulista, com transmissão restrita a pequenos grupos. A ampliação da vacinação para pessoas de 6 meses a 59 anos em São Paulo, anunciada em agosto, foi uma das respostas ao surto. Segundo Kfouri, o estado está há sete semanas praticamente sem novos registros, mas é preciso observar um período maior para dar a transmissão como interrompida.
Para o especialista, novas entradas do vírus são inevitáveis. “É inexorável a entrada de pessoas com sarampo aqui no país, já que o deslocamento populacional, milhares de pessoas vêm desses países vizinhos diariamente por fronteiras secas, aéreas, rodoviárias”, afirma.
O que separa um caso isolado de um surto, diz ele, é a proteção da população: “A gente precisa não só ter coberturas elevadas, mas também homogêneas, porque bolsões de baixas coberturas podem também ter o mesmo efeito da cobertura não tão ideal”.
Queda vacinal nos EUA serve de alerta
Os Estados Unidos passam de 3,6 mil casos em 2026, número 59% maior que o de 2025, que já tinha sido o pior ano em décadas. Houve cinco mortes, e nenhum dos infectados estava vacinado. Em 5 de outubro, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, decretou estado de emergência.
Em 2011, 21 dos 44 estados americanos com dados disponíveis tinham cobertura acima de 95%. Hoje, só 10 de 49 mantêm esse patamar. Dados do CDC indicam que ao menos 1,7 milhão de crianças deixaram de completar a vacinação. O problema não é só americano: relatório da OMS e do Unicef mostrou que o abandono do esquema vacinal infantil saltou de 4% para 12% em 2025.
Especialistas apontam a desinformação como o fator central. Donald Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., associaram vacinas ao autismo, relação descartada por pesquisas com milhões de crianças. A hipótese nasceu de um estudo fraudulento de 1998, depois retirado pela revista que o publicou. Kfouri acrescenta outros obstáculos: dificuldade de acesso, horário dos postos e a baixa percepção da gravidade da doença.
Sinais de alerta
Febre acima de 38,5°C, tosse seca, conjuntivite e mal-estar aparecem antes das manchas vermelhas, que surgem de três a cinco dias depois, no rosto e atrás das orelhas. Febre que continua depois das manchas é sinal de alerta, sobretudo em menores de 5 anos.
A doença pode causar pneumonia, otite e encefalite, além de provocar a chamada amnésia imunológica, que deixa o organismo mais vulnerável a outras infecções por três a seis meses.