A partir desta segunda-feira (3), São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo ampliam a vacinação contra o sarampo para todas as pessoas de 6 meses a 59 anos, mesmo as que já completaram o esquema vacinal. A campanha do Ministério da Saúde vai até 1º de setembro.
A medida busca conter um surto que já soma 18 casos confirmados no Brasil em 2026 — 15 deles em São Paulo, sendo 12 na capital. É o único estado brasileiro com transmissão ativa registrada até agora.
A engrenagem do surto
Dos 15 casos em acompanhamento no estado, 12 são da capital paulista. Dois foram importados — pacientes que estiveram na Bolívia e na Guatemala — e os demais resultaram de transmissão local. Os dois casos de São Bernardo do Campo tiveram contato prévio com pacientes da capital, o que caracteriza um surto ativo, segundo o Ministério da Saúde.
Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a Grande São Paulo reúne fatores que dificultam o bloqueio da doença: cerca de 20% da população brasileira vive no estado, com alta densidade populacional, intenso fluxo internacional pelo Aeroporto de Guarulhos, pelo Porto de Santos e por Campinas, além de deslocamentos constantes entre bairros e municípios.
“Em São Paulo há, sem dúvida, uma zona de muito perigo para a reintrodução do vírus e de mais difícil controle de bloqueio dessas ações”, afirma Kfouri.
Vacinação sem comprovação de doses anteriores
Por isso, ninguém precisará comprovar doses anteriores para ser vacinado nas três cidades: quem já tomou as duas doses da tríplice viral pode reforçar a proteção, e quem nunca foi imunizado — ou não sabe informar o histórico — também é alcançado pela ação. Segundo Kfouri, a vacina não tem eficácia de 100%, e uma dose extra ajuda a proteger quem não respondeu bem às aplicações anteriores, sem trazer riscos adicionais.
Crianças de 6 a 11 meses, que normalmente ainda não seriam vacinadas, também podem receber uma dose adicional, a dose zero. “Dar uma dose entre 6 e 11 meses não vai conseguir uma proteção ideal. Mas dá uma proteção parcial que faz com que a gente reduza a chance de essa criança pequena adoecer, especialmente de forma grave”, explica Kfouri.
Cobertura vacinal abaixo da meta acende alerta nacional
Em 2026, a primeira dose da tríplice viral atingiu 77,5% de cobertura em São Paulo, e a segunda, 65,5% — bem abaixo da meta de 95% do Ministério da Saúde. Em 2025, os índices eram de 94% e 84,4%, respectivamente. A queda na cobertura da tríplice viral em São Paulo reflete uma tendência global: relatório da OMS e do Unicef divulgado em julho mostrou que a taxa de abandono do esquema vacinal infantil saltou de 4% para 12% em 2025.
Ana Karolina Marinho, vice-coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), afirma que a vacinação ampliada é uma estratégia de bloqueio reconhecida internacionalmente. “Ao aumentar rapidamente o número de pessoas protegidas ao redor dos casos e em áreas de maior risco, diminui-se a quantidade de indivíduos suscetíveis e reduz-se a possibilidade de o vírus continuar circulando”, diz.
O sarampo pode provocar febre alta e manchas vermelhas que começam na cabeça e avançam pelo corpo, com risco de complicações como pneumonia e encefalite, mais graves em crianças desnutridas, adultos acima de 20 anos e imunossuprimidos. As reações à vacina, segundo Marinho, costumam ser leves — dor local, febre baixa ou exantema — e a contraindicação se restringe a casos de anafilaxia prévia ou imunocomprometimento grave.