A Amazônia concentra cerca de US$ 215 bilhões em valor comercial potencial de remédios ainda não descobertos, perto de 30% do total estimado para as florestas tropicais do planeta, segundo análise do grupo britânico Zero Carbon Analytics (ZCA) publicada em julho.
O cálculo considera medicamentos que poderiam surgir de plantas com flores. A fatia amazônica supera a do Sudeste Asiático e a da Bacia do Congo, mas o desmatamento ameaça apagar espécies e compostos antes que a ciência consiga estudá-los.
Ouvidos em reportagem de Xavier Bartaburu na Mongabay Brasil, especialistas alertam que, sem regras de repartição de benefícios e protagonismo da ciência local, esse potencial pode repetir antigos casos de apropriação de recursos.
Um valor que encolhe com a derrubada
No mundo todo, a ZCA estima uma mediana de US$ 714 bilhões em valor comercial potencial de medicamentos nas florestas tropicais, numa faixa que vai de US$ 382 bilhões a US$ 1,176 trilhão. O desmatamento desde 2001 já colocou em risco US$ 86 bilhões (R$ 430 bilhões) desse montante.
A conta parte do peso histórico da natureza na medicina: cerca de três em cada quatro remédios contra o câncer aprovados entre 1940 e 2014 vieram de produtos naturais ou foram inspirados neles. Estima-se ainda que 99% dos compostos químicos produzidos por plantas nunca passaram por triagem.
Coautora da análise, Joanne Bentley-McKune afirma que a Amazônia abriga potencialmente o maior valor comercial entre as grandes regiões florestais. Parte dele pode ter sumido: “Nos últimos 20 anos, muitas espécies endêmicas, ou seja, plantas que não ocorrem em nenhum outro lugar, podem ter sido perdidas devido ao desmatamento no Brasil”, disse.
Gargalos da ciência na região
Para Bráulio Ferreira de Souza Dias, diretor de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), não mais que 10% da biodiversidade brasileira é conhecida, e uma nova espécie de planta é descrita no país, em média, a cada dois dias.
A geografia pesa. O conhecimento se concentra ao longo dos rios, enquanto o interflúvio, as vastas áreas entre eles, segue pouco explorado. Chegar lá exigiria abrir estradas, justamente a maior ameaça à floresta. O resultado, segundo Dias, é “um nível enorme de ignorância científica”.
O dinheiro também. Menos de 3% da verba federal para ciência chega à Amazônia, embora a região responda por cerca de 10% do PIB, diz o diretor. O descompasso entre inovação, bioeconomia e políticas públicas já havia sido apontado na carta de pesquisadores amazônicos entregue à presidência da COP30.
Há ainda a questão das patentes. Muitos cientistas brasileiros publicam resultados antes de pedir o registro, o que abre caminho para empresas estrangeiras. O captopril, remédio para pressão desenvolvido por uma farmacêutica americana a partir de pesquisas da USP com o veneno da jararaca, é o exemplo citado. “Nem o Brasil nem a USP ganham nada com isso”, afirmou Dias.
Quem fica com os ganhos
Além do comercial, a ZCA calcula o valor social dos remédios ainda não descobertos, medido em benefícios à saúde dos pacientes: cerca de US$ 7 trilhões, dos quais US$ 860 bilhões já teriam sido perdidos com o desmatamento desde 2001.
O antropólogo Eduardo Brondízio, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, lembra que farmacêuticas historicamente usaram o conhecimento indígena como atalho. Para ele, empresas precisam atuar com universidades, prefeituras e organizações indígenas da região, com consentimento livre, prévio e informado, transferência de tecnologia e geração de empregos.
Regras ainda frágeis
O Protocolo de Nagoia, ratificado pelo Brasil em 2021 e implementado pela Lei da Biodiversidade de 2015, prevê repartição justa de benefícios. O novo desafio é o uso de sequências genéticas digitais, que escapam a esse controle. O Fundo Cali, criado em 2024 para cobrir a lacuna, recebeu só US$ 6 mil de duas empresas até agosto, ante US$ 1 bilhão anual esperado.
Zerar o desmatamento tropical até 2030 preservaria uma mediana de US$ 79 bilhões em valor comercial e US$ 0,8 trilhão em valor social até 2050, segue a ZCA. Brondízio avalia que isso exige mudar a visão de que “terra produtiva é terra domesticada, terra limpa”.