Política

MPF abre investigação contra diretor-geral da PF por suspeita de vazamento no caso INSS

Procedimento mira fala de Andrei Rodrigues em 2025 sobre sindicato ligado ao irmão de Lula, que já estava sob investigação
Brasão da Polícia Federal sobre a sede do MPF, ilustrando investigação sobre vazamento do diretor da PF no caso INSS

O Ministério Público Federal instaurou um Procedimento Investigatório Criminal para apurar se o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, divulgou indevidamente dados sigilosos da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em aposentadorias e pensões do INSS.

A portaria foi assinada em 15 de outubro pelo procurador da República Gabriel Pimenta Alves e publicada no Diário Oficial do MPF nesta terça-feira (20). O ponto de partida é uma declaração pública feita por Rodrigues em abril de 2025.

Fala sobre o Sindnapi está no centro do caso

Na ocasião, em entrevista ao site ICL Notícias, o chefe da PF afirmou que o Sindnapi (Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos) não era alvo da operação. A entidade tinha como vice-presidente Frei Chico, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Esse sindicato, o Sindnapi, não foi objeto de busca e apreensão. Tampouco os seus dirigentes foram alvos de qualquer medida”, disse Rodrigues. Ele acrescentou que o irmão do presidente “não é alvo da operação, não é investigado na operação”.

Reportagem anterior do Poder360 mostrou, porém, que o sindicato já estava sob investigação quando a declaração foi dada. O próprio Sindnapi foi alvo de busca e apreensão em 23 de abril de 2025, e a entidade afirmou, em nota, que apoiava a investigação das denúncias de irregularidades nos descontos. A contradição levantou dúvidas sobre o que, de fato, o diretor-geral sabia e transmitiu ao público. A abertura do procedimento foi revelada pelo jornalista Robson Bonin, da revista Veja.

O MPF quer esclarecer três pontos: em que circunstâncias Rodrigues teve acesso às informações da operação, qual foi o conteúdo exato de suas falas e se houve irregularidade na divulgação de dados protegidos por sigilo judicial.

Arquivamento foi barrado

O caso chegou a ter um pedido de arquivamento, mas a 7ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF não o homologou. Para o colegiado, era preciso aprofundar a apuração para verificar se houve descumprimento de dever funcional por parte do diretor-geral.

A câmara também apontou a necessidade de diligências sobre possível crime de violação de sigilo funcional (artigo 325 do Código Penal) e sobre eventual ato de improbidade administrativa, por violação dos deveres de honestidade e imparcialidade (artigo 11, inciso III, da Lei 8.429/1992).

O que a portaria determina

O documento do MPF lista cinco medidas. Entre elas, o envio do procedimento à Justiça Federal no Distrito Federal, para controle pelo juiz de garantias, e a anexação da decisão judicial que impôs sigilo ao inquérito sobre o Sindnapi dentro da operação.

A portaria também prevê o envio de ofício a Rodrigues para que ele preste esclarecimentos sobre os fatos. Procurada, a PF informou que não vai se manifestar.

O episódio amplia a pressão sobre uma investigação que já é uma das mais sensíveis do governo. Em maio, a própria PF transferiu a coordenação da Operação Sem Desconto para o setor que investiga políticos com foro no STF, sinal do peso político do caso.

Em julho, a operação resultou no indiciamento de 48 pessoas, entre elas o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto. Agora, o sigilo da Operação Sem Desconto passa a ser também objeto de apuração.