Ciência

Estudo sugere que animais surgiram até 200 milhões de anos antes do que se pensava

Microfósseis da Mongólia derrubam premissa usada há décadas e levam o reino animal para antes da era da Terra Bola de Neve
Estepe da Mongólia ao fundo de fósseis microscópicos, ilustrando a origem dos primeiros animais

Os primeiros animais podem ter surgido na Terra entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás, cerca de 200 milhões de anos antes do que a ciência estimava. É o que propõe um estudo publicado na revista Science Advances, baseado na análise de microfósseis encontrados na Mongólia.

Se a hipótese se confirmar, a origem do reino animal recua para o período Neoproterozoico, antes das glaciações mais severas da história do planeta. Isso contraria a ideia de que os animais apareceram pouco antes do Cambriano.

A premissa que caiu com os fósseis da Mongólia

Há décadas, a biota de Weng’an é um dos principais marcos para o estudo da origem da vida multicelular complexa. O sítio fica na China, em rochas do período Ediacarano, e tem cerca de 590 milhões de anos. Seus microfósseis estão preservados com detalhe extraordinário, mas nenhum deles é de animal.

Disso nasceu o raciocínio que dominou a área: se já existissem animais, um depósito tão bem preservado teria guardado seus restos. Portanto, eles teriam surgido depois de Weng’an.

A equipe pôs essa lógica à prova com mais de uma centena de amostras da biota de Kheseen, na Mongólia, cerca de 40 milhões de anos mais jovem. Ali também não há fósseis de animais, embora registros do sul da China e da Namíbia confirmem que eles já viviam na Terra nessa época.

“A biota de Kheseen refuta o argumento de que os excepcionais microfósseis de Weng’an implicam que teríamos encontrado fósseis de animais naquele depósito caso eles existissem na época”, afirmou o autor Ross Anderson. Segundo ele, os microfósseis de Kheseen estão igualmente bem preservados e, mesmo assim, os animais não aparecem.

A explicação é que os animais podiam viver em outros ambientes, cujas condições químicas impediam a fossilização. Ou seja, não estar no registro de um sítio excepcional não significa que eles não existiam.

Relógio molecular recalibrado

Sem Weng’an como limite, os pesquisadores recorreram a depósitos bem mais antigos, de 850 milhões a 730 milhões de anos, na Noruega, na Austrália e no Arizona, nos Estados Unidos. Esses locais também não têm fósseis de animais, mas a química das rochas indica que eles teriam sido preservados se estivessem lá.

Com essas novas referências, a equipe aplicou o relógio molecular, técnica que cruza diferenças genéticas entre espécies atuais com a idade dos fósseis para estimar quando viveram os ancestrais comuns. O resultado recuou em cerca de 200 milhões de anos a origem do reino animal, muito antes dos primeiros fósseis corporais confirmados.

Primeiros passos sob o gelo

A nova estimativa bate com biomarcadores químicos encontrados em rochas antigas, interpretados como possíveis sinais de esponjas primitivas que viveram há pelo menos 650 milhões de anos. Eram organismos minúsculos e de corpo mole, com chance baixíssima de fossilizar, ao contrário da fauna posterior, que já tinha conchas, ossos e outras estruturas resistentes.

A datação também indica que a evolução inicial dos animais coincidiu com as glaciações globais do Criogeniano, iniciadas há cerca de 720 milhões de anos, quando boa parte do planeta estava coberta de gelo. O fenômeno é conhecido como Terra Bola de Neve.

Para o coautor Derek Briggs, professor da Universidade Yale, os resultados ajudam a esclarecer “o que sabemos sobre os ritmos da evolução, o momento em que surgem as inovações biológicas e os processos que levam à diversificação dos animais”.

O trabalho se soma a outros achados recentes que empurram para trás marcos da evolução animal, como o fóssil chinês que recuou em 165 milhões de anos a origem da amamentação.

Ainda sem prova definitiva

Os próprios autores ressaltam que o estudo não prova que havia animais há 800 milhões de anos. Ele mostra apenas que a ausência de fósseis em um sítio específico não basta para descartar essa possibilidade, o que abre espaço para que análises moleculares revelem uma história evolutiva mais antiga.

“Até que a evidência esteja disponível, a data exata de surgimento do reino animal continua incerta”, concluiu Anderson.