Pesquisadores da USP e de instituições parceiras identificaram uma proteína sem a qual o Trypanosoma cruzi não completa seu ciclo de infecção — um ponto fraco que abre caminho para um novo tratamento da doença de Chagas, sem remédio inédito desde os anos 1970.
Em testes de laboratório, o grupo reduziu a produção da enzima IP6K no parasita. Ele ainda invadiu células cardíacas humanas, mas travou na hora de virar sua forma infectante. O resultado saiu em agosto na revista Communications Biology.
Um alvo que o corpo humano quase não compartilha
A pista de que a IP6K é essencial apareceu antes do resultado: quando os cientistas apagaram por edição gênica as duas cópias do gene que a codifica, o parasita simplesmente não sobrevivia. Os testes em células do coração só foram possíveis com parasitas que mantiveram uma cópia do gene.
“Ele até entra na célula e se replica, mas com dificuldade. Sua diferenciação em formas infectantes é prejudicada, o que leva à redução das formas sanguíneas a cada novo ciclo de infecção intracelular”, disse à Agência Fapesp Thaise Lara Teixeira, coautora do estudo e hoje professora visitante na Universidade Federal de Uberlândia.
O detalhe que mais interessa a quem desenha fármacos é outro: a proteína do parasita tem apenas cerca de 25% de similaridade com sua equivalente humana. Quanto mais distante o alvo das moléculas do nosso próprio organismo, menor a chance de efeitos colaterais — justamente o maior problema dos medicamentos em uso.
O ciclo do T. cruzi passa por dois hospedeiros, o barbeiro e um mamífero, e por quatro formas principais, complexidade que ajuda a explicar sua resistência a tratamentos. Interromper essa engrenagem em uma etapa específica é o que torna o achado promissor.
O trabalho também se soma a um movimento mais amplo: outro grupo da USP anunciou avanço parecido contra a leishmaniose cutânea, sinal de que as doenças tropicais negligenciadas voltaram ao radar da pesquisa científica brasileira.
Uma doença parada nos remédios dos anos 1970
O Ministério da Saúde registrou cerca de 400 casos de doença de Chagas no Brasil em 2025. A OMS estima que 8 milhões de pessoas estejam infectadas no mundo, a maioria na América Latina. Depois de uma fase aguda de 4 a 8 semanas, quase sempre silenciosa, de 20% a 30% dos pacientes desenvolvem problemas cardíacos anos ou décadas mais tarde, e cerca de 10% apresentam alterações digestivas.
Os dois medicamentos disponíveis são os mesmos descobertos na década de 1970: só funcionam no início da infecção e provocam efeitos colaterais que levam muitos pacientes a abandonar o tratamento. Poucas opções terapêuticas, desinteresse da indústria farmacêutica e uma população majoritariamente de baixa renda formam a equação que mantém a Chagas na lista das doenças negligenciadas.
O cenário tende a ficar mais apertado. Estudo publicado em 2025 projetou que as mudanças climáticas devem ampliar a área de risco da doença na Amazônia até 2080, o que reforça a urgência de terapias mais eficazes.
O que vem agora
O caminho até um comprimido é longo: falta identificar sítios específicos da proteína que sirvam de encaixe para uma molécula. Nos laboratórios envolvidos, já há frentes investigando se a IP6K participa do reparo de DNA do parasita, como o sistema imune humano responde ao T. cruzi enfraquecido e se a Leishmania carrega a mesma vulnerabilidade.