Ciência

Terceiro incêndio em duas semanas na UFPE destrói 20 anos de dados de pesquisa

ABC e SBPC falam em perda irreparável para a ciência brasileira; reitoria estima R$ 100 milhões em prejuízo
Vista aérea do campus da UFPE, palco do incêndio nos laboratórios da UFPE que destruiu décadas de pesquisa.

O fogo que atingiu laboratórios de genética, fármacos e informática da UFPE, no Recife, na noite de quarta-feira (7), apagou registros científicos reunidos ao longo de cerca de 20 anos e colocou em risco aproximadamente 80 dissertações de mestrado e teses de doutorado em andamento.

Foi o terceiro incêndio em instalações da universidade em menos de duas semanas. A Polícia Federal foi acionada para investigar as causas, até agora não esclarecidas, e a reitoria estima o prejuízo em R$ 100 milhões.

O que o fogo levou embora

Segundo a UFPE, ninguém ficou ferido. O Corpo de Bombeiros foi acionado, mas as chamas se espalharam rapidamente pelo prédio, que armazenava materiais usados nas atividades laboratoriais.

Os espaços destruídos abrigavam grupos de pesquisa com experimentos de longo prazo. Parte desse trabalho estava guardada justamente nos dados e materiais alcançados pelo incêndio, o que pode obrigar à repetição de etapas inteiras de estudo, quando isso ainda for possível.

A estimativa de R$ 100 milhões é do reitor Alfredo Gomes, em declaração ao g1. O valor contabiliza equipamentos e estrutura física, mas não mede o que se perdeu em registros científicos produzidos ao longo de duas décadas.

Entidades científicas cobram apuração

A dimensão dos danos levou a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) a divulgar uma nota conjunta na quinta-feira (8), assinada pelas presidentes Helena Nader e Francilene Garcia.

No documento, as duas instituições classificam o episódio como uma perda irreparável para a ciência brasileira, manifestam solidariedade a pesquisadores, professores e estudantes atingidos e cobram investigação rápida e transparente sobre as causas do fogo.

Três focos em menos de duas semanas

Em 30 de setembro, um incêndio atingiu o Laboratório de Óptica Não-Linear, do Departamento de Física. No domingo (4), outro episódio ocorreu no Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, do Centro de Biociências. Nos dois casos, as chamas ficaram restritas às salas atingidas.

Foi a repetição em intervalo curto que as entidades afirmaram acompanhar com preocupação, ao defender que as circunstâncias sejam esclarecidas com rapidez.

Um precedente que o país já conhece

O caso recoloca em cena outro episódio de perda irreparável para o patrimônio científico nacional: o incêndio do Museu Nacional, em 2018, cujo acervo só começou a ser parcialmente recomposto em 2026, com museus estrangeiros devolvendo fósseis brasileiros quase oito anos depois.

A diferença é de natureza: coleções podem ser devolvidas ou reconstituídas aos poucos, mas séries de dados de pesquisa em andamento não têm equivalente guardado em outro lugar. Para as 80 teses e dissertações afetadas, o custo aparece primeiro no calendário de quem precisa concluir o trabalho.