As populações de vertebrados monitoradas na América Latina e no Caribe encolheram, em média, 95% entre 1970 e 2022 — o declínio mais severo de qualquer região do planeta. O dado está no Relatório Planeta Vivo, divulgado nesta quinta-feira (8) pelo WWF.
No mundo, a queda média foi de 73% em 52 anos. A perda e a degradação de habitats lideram a lista de ameaças, seguidas por exploração insustentável, mudanças climáticas, poluição, espécies invasoras e doenças.
Água doce é o ambiente mais castigado
O relatório se apoia no Índice Planeta Vivo, calculado pela Sociedade Zoológica de Londres (ZSL) a partir de 35.803 séries de dados sobre 5.790 espécies de vertebrados. Só na América Latina e no Caribe — onde estão seis dos sete países megadiversos das Américas — são acompanhadas mais de 4 mil populações de 1.405 espécies.
Entre os tipos de ambiente, os de água doce registraram o pior resultado, com queda média de 85%. Vêm depois os terrestres, com 69%, e os marinhos, com 56%.
No território latino-americano, a conversão de pastagens, florestas e zonas úmidas, o represamento de rios e a superexploração de espécies se somam a dois fatores que pesam mais aqui do que em outras regiões: as mudanças climáticas e as doenças. “Em alguns casos, os impulsionadores de mudança interagem, por exemplo, em anfíbios, quando os impactos das mudanças climáticas podem tornar as espécies mais vulneráveis a infecções”, descreve o documento. Efeito parecido já havia sido flagrado em aves tropicais, que perderam até 38% de suas populações mesmo dentro de florestas preservadas.
A perda de habitat, ameaça número um da lista, tem retrato recente no Brasil: o país perdeu 14% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2025, enquanto a área ocupada pela agropecuária quase dobrou, segundo o MapBiomas.
Casos de recuperação mostram que a curva pode virar
O levantamento também reúne populações que voltaram a crescer por efeito direto de ações de conservação, ainda que sem força para reverter a tendência geral: tartaruga-verde, atum-azul, tigres e elefantes no sul da África e, no caso brasileiro, o mico-leão-dourado. O relatório cita ainda os avanços recentes do país contra a devastação, que em 2025 ficou abaixo de 1 milhão de hectares pela primeira vez desde 2019.
“Os exemplos de recuperação apresentados pelo relatório mostram que o declínio da natureza não é inevitável. O Brasil tem condições de reverter perdas, mas isso exige ações de conservação contínuas e em escala, com proteção e restauração dos ecossistemas e enfrentamento das causas da perda de biodiversidade”, afirmou ao ((o))eco Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil.
Para ela, o processo é encadeado: quando uma floresta é desmatada ou degradada, o fogo avança sobre áreas naturais ou uma seca extrema altera rios, “as espécies perdem alimento, abrigo e condições para se reproduzir”. A especialista cobra também o reconhecimento do papel de povos indígenas e comunidades tradicionais no esforço de conservação. “Recuperar a biodiversidade significa gerar resultados concretos não apenas para as espécies e os ecossistemas, mas também para as pessoas que vivem nesses territórios e dependem deles”, completou.