A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, pode acrescentar até três centímetros ao nível médio global do mar até 2100. É cerca do dobro da média de 1,52 centímetro calculada pelos modelos internacionais usados como referência.
A projeção vem de um estudo de pesquisadores da Universidade da Califórnia publicado na revista Nature Communications. O resultado vale mesmo sem aquecimento adicional do clima. O que muda a conta é a forma de representar a água do oceano que avança por baixo do gelo.
O ponto cego dos modelos anteriores
A parte da geleira que se apoia no leito marinho e a parte que flutua são separadas pela zona de aterramento. É ali que a água do oceano, relativamente quente, derrete o gelo por baixo. Muitos modelos computacionais tratam essa transição como uma linha fina. Por isso, deixam de considerar a água do mar que se infiltra por quilômetros sob a geleira e o derretimento que ela provoca.
Para preencher essa lacuna, a equipe liderada por Mattia Poinelli, autor principal do estudo, simulou zonas de aterramento com dois a cinco quilômetros de largura. Os cientistas compararam o modelo com quase três décadas de observações, de 1996 a 2023, e conseguiram reproduzir melhor as mudanças na velocidade, na espessura e na posição da Thwaites.
Recuo de 25 quilômetros
Desde meados dos anos 1990, o setor ocidental da geleira, onde o gelo escoa mais rápido, recuou cerca de 25 quilômetros. A Thwaites já havia sido apontada entre as regiões mais afetadas pelo derretimento acelerado do gelo na Antártida, num quadro de mínimas históricas de gelo no continente e de riscos crescentes para cidades costeiras.
“A percepção crescente, nos últimos anos, do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação”, afirmou Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia em Irvine. Segundo ele, o novo modelo traz uma representação física mais completa da região.
Crista Mouginot pode ceder já em 2038
Hoje, a Thwaites ainda se mantém parcialmente estável graças à Crista Mouginot, uma elevação do fundo do mar que funciona como ponto de apoio. Se perder esse apoio, a geleira tende a recuar até outra elevação submarina, a Crista Sul.
Nas simulações com zonas de aterramento de quatro a seis quilômetros, medida compatível com observações recentes por satélite, a chance de a geleira se desprender da crista até 2100 chegou a cerca de 60%. Nesse conjunto de simulações, o desprendimento poderia ocorrer já em 2038. Quanto mais cedo isso acontecer, maior a perda de gelo.
Estimativa conservadora
As simulações mantiveram fixas as condições climáticas médias de 1996 a 2023. Por isso, os números funcionam como um limite inferior: isolam o efeito do derretimento na zona de aterramento sem considerar o aquecimento futuro.
Os autores reconhecem limitações. O modelo não simula o desprendimento de blocos na frente de gelo, usa uma versão simplificada do derretimento causado pelo oceano e mantém fixa a largura da zona de aterramento, que na prática varia com as marés, o relevo do fundo e a pressão da água. Para reduzir as incertezas, os pesquisadores pedem medições diretas de temperatura, salinidade e circulação da água sob o gelo.