Um monitoramento de redes sociais identificou 13 mil comentários ofensivos dirigidos a candidaturas LGBT+ desde o início do período eleitoral de 2026. Todos tinham alvo definido: uma pessoa ou candidatura identificável.
O levantamento é da plataforma Sentinela, desenvolvida pelo Instituto Plena Cidadania (IPC), organização responsável pelo VoteLGBT. Foram analisados 307.185 comentários no Instagram, recortados de um universo de mais de 1 milhão de interações.
A triagem combinou coleta automatizada, classificação e inteligência artificial generativa. Cada mensagem passou por quatro perguntas: se há violência, quem é o alvo, se existe componente LGBTfóbico e se esse componente atinge diretamente a candidatura monitorada.
Repetição e sinais de coordenação
Os 13 mil comentários com alvo definido partiram de mais de 11 mil contas diferentes. Um núcleo de 224 perfis concentrou 1.718 mensagens, o que indica que parte das agressões se repete a partir dos mesmos endereços.
“Quando tem a mesma mensagem repetida por 63 contas em um intervalo muito curto de tempo, como a gente verificou contra uma candidatura de Goiás, a gente tem forte indício de que isso foi coordenado. Isso pode ser uma combinação de pessoas ou automatizada”, afirmou Gui Mohallem, da direção executiva do IPC, em entrevista à Agência Brasil.
Segundo a plataforma, o risco de falsos positivos é contido por um critério conservador: a análise não se limita à presença de palavras ou expressões específicas, e casos ambíguos ficam fora da contagem. O padrão de violência digital contra quem disputa eleição já havia sido flagrado em outro levantamento, que encontrou rastros de inteligência artificial em uma a cada quatro imagens ofensivas dirigidas a candidatas.
Alvo preferencial: mulheres negras
Entre as agressões já registradas, 92,7% atingiram candidaturas de mulheres LGBT+ e 83,6% tiveram como alvo candidaturas negras LGBT+. Os números seguem em atualização ao longo do processo eleitoral.
“Essa violência que a gente está verificando é uma violência de gênero e está acontecendo com muitas mulheres na política e não só as LGBT”, disse Mohallem. Para ele, o quadro levanta uma questão democrática: “O custo de se colocar para ser candidata é naturalizar que vai sofrer violência e receber ataques?”. O dado se soma a um quadro mais amplo: um levantamento recente mostrou que o Brasil registra um caso de violência política a cada 44 horas mesmo fora do período eleitoral.
Em 23 de setembro, o IPC protocolou notícia-crime na Justiça Eleitoral contra três candidatos a deputado federal, acusados de ataques à identidade de gênero de deputadas que buscam a reeleição. O instituto cobra ainda uma resposta sobre o uso de verba pública: “O dinheiro público vai continuar sendo usado para financiar crimes na internet?”, questionou Mohallem, lembrando que LGBTfobia é crime no país e que o financiamento de campanha é público.
A Sentinela também recebe prints de mensagens enviadas por inbox e e-mail — canal pelo qual, segundo o instituto, chegam as ameaças mais graves, muitas vezes por provedores em países sem acordo de cooperação com o Brasil. Outro braço, o Cuida Mais, oferece sessões de terapia gratuitas e sigilosas a candidaturas atacadas e suas equipes. A plataforma negocia parcerias para operar na Argentina e no México em 2027.