O Brasil atravessou o período pré-eleitoral mais violento da última década, com um ataque por motivação política a cada 44 horas — e nem a ausência de disputa nas urnas conteve a escalada. O levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, divulgado nesta quarta-feira (30), contabilizou 354 casos até agosto de 2026.
O total é 18,4% maior que os 299 episódios do ciclo anterior, encerrado em agosto de 2024, e o mais alto da série histórica iniciada em 2016. O recorte revela o alvo: 96,3% das vítimas já exerciam mandato ou cargo público.
O poder local é o alvo preferencial
A contagem cobre o intervalo entre 28 de outubro de 2024, dia seguinte ao segundo turno das eleições municipais, e 15 de agosto de 2026, véspera do início da propaganda eleitoral. Ou seja: o pico aconteceu justamente quando não havia campanha em curso. Em 2025, ano sem qualquer eleição, o levantamento já havia registrado 225 casos — volume menor que o do atual período pré-eleitoral, mas que mostra que a violência política não depende do calendário das urnas para se manter alta.
Dos 354 episódios, 63% atingiram a política municipal, com vereadores e prefeitos no centro da mira. Vereadoras e vereadores concentram a maior parte dessas ocorrências, somando isoladamente 49,6% das vítimas — 176 episódios —, uma média de três casos de violência para cada mil parlamentares municipais eleitos em 2024. A letalidade segue a mesma geografia: 24 dos 28 casos com intenção de matar tiveram agentes políticos locais como vítimas, incluindo 10 dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados registrados no período.
São Paulo lidera o ranking estadual, com 67 ocorrências, seguido pelo Paraná (31) e pelo Ceará (29). A resposta institucional, no entanto, é residual: das 354 ocorrências, 300 (84,5%) tiveram denúncia formal ou pública, mas apenas 46 casos (13%) têm apuração judicial ou policial em curso, e somente 9 dos 354 casos — 2,5% do total — resultaram em punição efetiva dos agressores. Em 29,9% dos episódios, os próprios agressores eram policiais ou outros agentes do Estado, e em 18,1% dos casos quem atacou também ocupava mandato eletivo ou cargo público; pelo menos 52 ataques ocorreram dentro do próprio local de trabalho parlamentar das vítimas. Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri, classificou o cenário como uma “grave ameaça não apenas à vida de mandatários, mas à sustentabilidade do regime democrático e das instituições” e cobrou a aplicação das sanções previstas na Lei 14.192, de 2021, criada para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. Já a diretora executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho, destacou que grupos criminosos e até policiais estão entre os responsáveis pelos ataques. Segundo as entidades, os números da violência durante a campanha eleitoral de primeiro turno de 2026 devem ser divulgados na próxima semana.
Metade das vítimas são mulheres
Mulheres cis, trans e travestis respondem por 50,6% das vítimas, ou 176 ocorrências, embora ocupem cerca de 18% das cadeiras legislativas do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. A desproporção indica que o ataque não é consequência estatística da presença feminina na política, mas uma resposta a ela. O tipo de violência também varia por gênero: ataques físicos — agressões, atentados e assassinatos — têm homens como alvo em 77,2% dos casos, enquanto a violência simbólica, como ameaças e ofensas, atinge majoritariamente mulheres (58,3%). Ameaças de violência sexual, com 31 casos, e comentários de conotação sexual sobre corpo ou aparência, outros 67 casos, tiveram 100% das vítimas mulheres.
O recorte racial agrava o quadro: entre as mulheres atacadas, uma em cada três era preta (64 das 179 ocorrências), proporção que cai para uma em cada nove entre os homens; onze das vítimas negras eram mulheres trans ou travestis, e o levantamento ainda contabilizou quatro vítimas indígenas e uma amarela. Das 32 pessoas que sofreram ataques repetidos ao longo do período, 23 eram mulheres. As únicas quatro ameaças do levantamento assinadas por grupos ou perfis neonazistas ou supremacistas também tiveram mulheres negras como alvo, em quatro estados de regiões diferentes: a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE). Para a pesquisadora Franciele Petry, uma das coordenadoras do estudo, a reprodução dessa violência “impede justamente uma participação plena e efetiva” de mulheres, pessoas negras, pessoas trans e da comunidade LGBTQIAP+ na política — o que, segundo ela, questiona o quanto o país vive uma democracia plena.
Esse recorte de gênero ecoa um quadro mais amplo de violência no país: o Brasil também bateu recorde de feminicídios no primeiro trimestre, com 399 mortes.
Ligue 180 recebeu 1.564 denúncias em oito meses
Uma segunda frente de dados confirma a tendência. Pesquisa do Ministério da Mulher com registros da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, somou 1.564 denúncias de violência política entre janeiro e agosto de 2026. O número de violações é maior, 1.581, porque uma mesma denúncia pode reunir mais de uma prática do mesmo agressor.
Janeiro foi o mês mais violento, com 263 denúncias, seguido por abril (249) e fevereiro (215). A distribuição territorial repete o mapa da política brasileira: São Paulo concentra 430 registros, à frente de Rio de Janeiro (260), Minas Gerais (149), Bahia (89), Rio Grande do Sul (62), Paraná (61) e Santa Catarina (56).
Cor da pele pesa no perfil das vítimas
Das 1.564 denúncias, 842 (53,84%) partiram de mulheres negras, pretas e pardas. Mulheres brancas somam 590 registros (37,72%) e outras raças ou cores, 132 (8,44%).
O peso de mulheres negras nas denúncias não é um dado isolado: o Atlas da Violência 2026 mostra que pessoas negras são 77% das vítimas de homicídio no país. Na política, o padrão se reproduz — com a diferença de que, aqui, a violência atinge quem foi eleita para decidir.