Para 41% dos brasileiros, as mudanças climáticas são a maior ameaça ao futuro — à frente de perda de emprego, retrocesso na democracia e piora da saúde. O dado está na pesquisa inédita Termômetro do Brasil, do Instituto Oyá em parceria com a Ipsos.
O estudo ouviu 2 mil pessoas. Mas quando a pergunta muda para o que preocupa agora, o clima desaba para o nono lugar, com 14% — um descompasso entre o medo do amanhã e a agenda do dia.
Na lista de ameaças ao futuro de si e da própria família, o clima (41%) aparece acima de perda de emprego (32%), retrocesso na democracia (32%), deterioração da saúde (31%), escassez de alimentos (30%) e pandemia (24%).
Quando o recorte passa a ser o presente, a ordem se desfaz: o clima cai para o nono lugar (14%) e as ameaças ao meio ambiente para o décimo (10%). Com esse resultado, o Brasil fica apenas na 20ª colocação entre os países mais preocupados.
O contraste entre percepção e ação já havia sido flagrado em pesquisa anterior, que mostrou que 43% dos brasileiros não mudaram nenhum hábito mesmo sentindo os efeitos da crise climática no dia a dia.
A desinformação que atravessa o debate climático
Em média, 78% dos entrevistados não souberam diferenciar notícias falsas de verdadeiras, inclusive sobre eventos climáticos extremos. A partir de um experimento social cego, o levantamento indicou que conteúdos falsos de forte apelo emocional são aceitos como verdade — um achado que o instituto considera especialmente sensível no atual contexto eleitoral.
“Algo que nos deixou bem preocupadas é que 67% dos brasileiros confiam na tecnologia, enquanto 65% desconfiam dos governos”, disse a diretora executiva do Instituto Oyá, Camila Kamilo, em entrevista à Agência Brasil. Na mesma linha, 81% dizem temer o uso de deepfakes e de inteligência artificial para manipulação de imagem e voz.
Desconfiança nas instituições, crédito às ONGs
Mesmo com a erosão da confiança apontada pelo estudo, 45% dos brasileiros afirmam acreditar nas organizações não governamentais. Para Kamilo, é nesse ponto que está a saída: fortalecer as organizações da sociedade civil e a imprensa como difusoras de informação checada.
“O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado”, afirmou a pesquisadora, que defende políticas públicas e novos modelos de comunicação para garantir a veracidade do que circula socialmente.
O levantamento também descreve um eleitorado distante da militância tradicional: 39% descartam atuar em campanhas ou partidos e 33% rejeitam protestos de rua. Segundo a diretora do instituto, o engajamento — inclusive sobre clima — migrou para as redes sociais, em participação à distância e sem presença física.
Duas semanas antes, outro levantamento já havia mostrado que 91% dos brasileiros cobram propostas climáticas concretas dos candidatos às eleições de 2026.