Duas vacinas oferecidas na mesma sala, na mesma consulta de pré-natal, e uma diferença de quase 40 pontos na adesão. A vacinação de gestantes contra a coqueluche (dTpa) chegou a 94% de cobertura em 2025, segundo o Ministério da Saúde. A da covid-19 ficou em 55%.
O contraste dentro do mesmo calendário do SUS sugere que o obstáculo não está no posto de saúde, mas no que as grávidas ouvem antes de estender o braço. A meta oficial é de 90% do público-alvo para todos os imunizantes.
Onde a conta chega
Entre 2022 e o início de agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes e puérperas desenvolveram síndrome respiratória aguda grave (SRAG) após infecção por influenza, e 25 delas morreram — sete somente neste ano. A covid-19 provocou 205 casos graves e 21 mortes no mesmo período, em levantamento feito pelo Ministério da Saúde a pedido da Agência Brasil.
São números modestos ao lado do que foi a pandemia: em 2020, 2021 e 2022, houve 3.547 casos graves de covid-19 em gestantes e puérperas, com 811 óbitos — quase uma em cada quatro. A queda acompanha a chegada da vacina ao grupo. Cientistas brasileiros compararam os registros antes e depois do início da imunização e encontraram um terço dos casos mensais e mortalidade quase cinco vezes menor.
A proteção, porém, não cobre todo mundo. Gripe e covid-19 juntas respondem por quase 30% dos casos de SRAG em gestantes e puérperas registrados no país este ano — e por mais da metade das mortes.
Acomodação de um lado, mito do outro
Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Flávia Bravo, os dois índices baixos têm causas diferentes. No caso da gripe, diz ela, há desvalorização da doença: “as pessoas ainda pensam ‘será que essa vacina é tão importante assim?’”. Já sobre a covid-19, “prevaleceu esse mito de que é uma vacina experimental, feita às pressas, o que é mentira” — a tecnologia de RNA mensageiro, afirma, é antiga e só foi adaptada mais rápido por causa do volume de investimento e da colaboração internacional.
A resistência já tem custo mensurável fora do pré-natal: a campanha nacional contra a gripe de 2026 fechou com 38,5% de cobertura, menos da metade da meta, enquanto as mortes por SRAG associada à influenza subiam.
O que a cobertura alta consegue fazer
A própria dTpa mostra que o número pode virar. Em 2016, só 34% das grávidas a tomavam; em 2025, 94% (os dados preliminares de 2026 indicam 88%). No mesmo movimento, a coqueluche caiu de 7.747 casos confirmados em 2024 para 2.744 em 2025 e 401 até 10 de setembro deste ano. Ainda assim, dos 11 óbitos de 2026, nove foram de bebês com menos de 1 ano — oito deles com menos de 6 meses.
O caso mais recente é o do vírus sincicial respiratório. Desde que entrou no calendário da gestante, a vacina contra o VSR já alcançou 1,7 milhão de mulheres, cobertura estimada em 86%. Combinada ao anticorpo monoclonal aplicado em prematuros, ajudou a reduzir os casos graves em bebês de até 6 meses de 14.061 para 6.674 no primeiro semestre.
O mecanismo é o mesmo em todos esses casos: o esquema de vacinação do bebê contra gripe e covid-19 só começa aos 6 meses, e contra a coqueluche se completa nessa mesma idade. Até lá, o recém-nascido vive dos anticorpos que atravessaram a placenta. Segundo Flávia Bravo, ensaios clínicos indicam redução de cerca de 70% na ocorrência de gripe nos primeiros meses de vida, e no caso da covid-19 a concentração de anticorpos no cordão umbilical chega a superar a do sangue materno.
A ginecologista Giuliane Lajos, da comissão de vacinas da Febrasgo, defende tratar os imunizantes como item obrigatório do pré-natal, não como cuidado extra. “Eu até faço uma piada: menos chá revelação e mais vacinação”, disse. Sobre segurança, é categórica: a vacina de covid-19 “se tornou o imunizante mais estudado do mundo” e não tem “nenhum risco comprovado de malformação fetal, autismo, morte, nada”.