A Polícia Federal aponta que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, atuou nos bastidores em favor da fabricante de fertilizantes Unigel para destravar um contrato com a Petrobras.
Segundo inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal, o filho do presidente Lula agiu em parceria com a lobista Roberta Luchsinger e com o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. O teor das mensagens foi revelado pelo jornal O Globo.
O arrendamento foi assinado em 29 de dezembro de 2023 e não chegou a ser renovado pela petroleira cinco meses depois.
Consultoria previa R$ 25 milhões atrelados ao BNDES
O inquérito descreve um contrato de consultoria fechado entre Luchsinger e Leo Slezynger, diretor da Unigel e filho do fundador da empresa. A primeira meta era o arrendamento com a Petrobras, apontado como saída para evitar a falência da companhia. A segunda, um financiamento de R$ 500 milhões no BNDES para uma joint venture com a estatal.
O acerto previa R$ 100 mil de entrada e mais R$ 25 milhões caso o empréstimo saísse. Entre março de 2023 e julho de 2024, de acordo com a PF, Slezynger repassou R$ 1,26 milhão à lobista, além de presentes, pagamentos extras e diárias de hotel.
A estratégia de aproximação com o filho do presidente
As mensagens indicam que Lulinha foi informado das tratativas, conversava com o sócio da Unigel pelo WhatsApp e se reuniu com ele pela primeira vez em 21 de março de 2023. A partir daí, passou a discutir com o empresário a criação de um fundo de sustentabilidade, do qual seria conselheiro — ideia sugerida pela própria lobista.
“Chama p o conselho. Paga um salário de conselheiro. Faz ele atuar para você. Você acha o pai dele vai querer beneficiar qual fundo?”, escreveu Luchsinger a Slezynger em abril de 2023. Em julho, ao ser agradecido por uma suposta intervenção junto ao presidente, Fábio Luís respondeu: “Agora é vc fazer o gol e nós saímos pro abraço”.
A proximidade entre a lobista e o ex-chefe de gabinete já havia chamado atenção da PF em agosto, quando veio à tona um repasse de R$ 249 mil de Luchsinger a Marcola, classificado por ele como empréstimo pessoal.
Pressão política e fim do contrato
Nos bastidores, a cobrança pela assinatura era atribuída ao então ministro da Casa Civil, Rui Costa, e aos senadores Jaques Wagner (PT-BA) e Otto Alencar (PSD-BA), apelidados nas conversas de “Clube da Bahia”. A Cigel Participações, que controla a Unigel, é doadora de campanhas petistas no estado. Nenhum dos três se manifestou sobre a pressão que lhes é atribuída.
As mensagens também registram tentativa de acionar o Ministério de Minas e Energia: em novembro de 2023, Luchsinger pediu que Marcola falasse da Unigel com o ministro Alexandre Silveira. Em nota, a pasta afirma que Silveira nunca foi procurado para interferir em temas de sua alçada.
A Petrobras não renovou o contrato em maio de 2024, alegando descumprimento de metas de eficácia, e um relatório do Tribunal de Contas da União apontou prejuízo à estatal. O último pagamento à lobista registrado pela investigação é de 30 de julho daquele ano. Em 2025, as fábricas da Bahia e de Sergipe voltaram à estatal por acordo arbitral.
O que dizem os citados
A defesa de Lulinha fala em vazamento criminoso e seletivo, diz não ter acesso aos autos e afirma que ele provará inocência. A de Marcola sustenta que ele nunca intermediou negociações. A Unigel nega qualquer relação contratual com Luchsinger; a Petrobras afirma que nenhum diretor tratou do tema com os citados; e a Secom diz que Lula não recebeu demandas nem interferiu.
Dois dias antes, a PF já havia flagrado a lobista orquestrando pagamentos a servidores do Ministério do Desenvolvimento Social.