A Europa enfrenta incêndios florestais históricos neste verão, e a fumaça liberada pelas queimadas ameaça a saúde de milhões de pessoas muito além das áreas atingidas pelo fogo.
Pesquisas publicadas em 2026 no European Heart Journal e na Science Advances apontam que a exposição repetida à fumaça de incêndios florestais eleva o risco de AVC em idosos e já provocou milhares de mortes precoces nos Estados Unidos.
O que torna a fumaça tão perigosa
O principal vilão da fumaça de incêndios florestais é o material particulado PM2,5, partículas com até 2,5 micrômetros de diâmetro compostas por fuligem, poeira e outras substâncias que funcionam como uma liga, atraindo metais tóxicos e compostos orgânicos. Ao ser inalado, o PM2,5 penetra nos pulmões e na corrente sanguínea, provocando inflamação e danos a diversos órgãos.
A exposição prolongada a essas partículas está associada a doenças pulmonares como asma, além de problemas cardíacos, diabetes, demência e câncer. Gestantes formam um grupo particularmente vulnerável: a fumaça pode aumentar o risco de partos prematuros e de bebês com baixo peso ao nascer. Pesquisas sobre o avanço da demência na América Latina já apontam metais pesados e poluição do ar como parte do conjunto de fatores ambientais que explicam o crescimento dos casos na região.
Metais pesados e “químicos eternos”
Uma equipe internacional liderada pelo pesquisador Johnson analisou bombeiros e civis saudáveis recentemente expostos à fumaça e identificou mercúrio e cádmio — metais pesados presentes naturalmente em plantas e solos, mas também em materiais produzidos pelo homem. O grupo também encontrou compostos cancerígenos e PFAS, os chamados “químicos eternos”, substâncias sintéticas usadas em produtos do cotidiano e materiais de construção, associadas a câncer e distúrbios metabólicos.
Uma ameaça que viaja e se intensifica
A fumaça de incêndios florestais fica mais tóxica com o passar dos dias, à medida que reações químicas na atmosfera aumentam sua capacidade de danificar células. Pesquisadores na Grécia constataram que ela pode se tornar até quatro vezes mais nociva nos dias seguintes a um incêndio, e correntes de ar podem levá-la a milhares de quilômetros de distância.
Foi o que aconteceu nos incêndios do Canadá em 2023: cerca de 6.000 focos queimaram 15 milhões de hectares e espalharam poluição por PM2,5 por toda a América do Norte, alcançando também Europa e Ásia. Um estudo de setembro de 2025 estimou que essa fumaça esteve relacionada a 5.400 mortes na América do Norte e a cerca de 64.300 mortes associadas a doenças crônicas no continente e na Europa.
Diante do risco, especialistas recomendam permanecer em ambientes fechados durante e logo após os incêndios, usar filtros em sistemas de ar-condicionado e manter máscaras N95 à disposição. Na Europa, porém, essa proteção esbarra em um obstáculo estrutural: as casas do continente foram projetadas para reter calor no inverno, e o ar-condicionado ainda é raro, dificultando o isolamento justamente nos momentos de maior risco à saúde.