Economia

EUA e China esticam trégua comercial até janeiro e ganham tempo para acordo maior

Trégua segue até janeiro; após a cúpula em Washington, Trump e Xi dizem ter alcançado entendimento comum em diversas questões
Trump e Xi Jinping lado a lado simbolizam a trégua comercial entre EUA e China antes da cúpula

A trégua comercial entre Estados Unidos e China vai durar mais dois meses. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou nesta quarta-feira (23) que o prazo que terminaria em 10 de novembro foi esticado até janeiro.

O anúncio veio horas antes da cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, realizada na quinta-feira (24) em território americano. Para Bessent, a extensão dá aos dois governos “mais tempo para ver o que podemos fazer na área econômica”.

Reuniões em série antes do encontro dos líderes

Bessent falou à Fox News depois de sua segunda reunião em quatro dias com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng. O encontro desta quarta, na sede do Banco Mundial, em Washington, durou cerca de 90 minutos e serviu para resolver “questões pendentes” antes da cúpula.

Essa também não foi a primeira conversa da semana: quatro dias antes, em Nova York, Bessent e He Lifeng já haviam debatido chips avançados e inteligência artificial em preparação ao encontro com Xi. Aquela rodada, com a presença do representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, se estendeu por 12 horas — e foi nela que Pequim levantou a possibilidade de um pacto comercial mais amplo, sem detalhar o alcance.

As cobranças em cima da mesa

Segundo o secretário, a China cumpre a exigência de comprar 25 milhões de toneladas de soja, mas continua abaixo da meta de US$ 17 bilhões em outros produtos agrícolas. Autoridades americanas disseram na semana passada que as entregas chinesas de terras raras também estão abaixo do esperado.

Washington quer que Pequim amplie o cumprimento do acordo vigente nos próximos meses. Questionado sobre a chance de um novo pacto sair até 10 de janeiro, Bessent respondeu que isso ainda não está claro.

A distensão econômica de Busan, acordada em maio na Coreia do Sul, derrubou tarifas bilaterais que chegaram a três dígitos depois da escalada de retaliações desencadeada pelos aumentos tarifários promovidos por Trump no ano passado. Na ocasião, a China aceitou restabelecer o fluxo de ímãs de terras raras e de outros minerais críticos que havia restringido.

O que saiu da cúpula

O encontro de quinta-feira (24) foi o segundo de até quatro previstos entre Trump e Xi neste ano. Antes da cúpula, Bessent havia dito que o encontro poderia render anúncios sobre a meta de zerar tarifas sobre US$ 30 bilhões em produtos não essenciais, além de decisões sobre serviços financeiros e compras agrícolas. “Estamos confortáveis com as duas opções e vamos fazer o que for melhor para o povo americano”, disse.

Na rede X, o secretário classificou as discussões como substanciais e afirmou que o Tesouro está focado em garantir compromissos que protejam trabalhadores, agricultores e empresas americanas, junto aos interesses econômicos e de segurança nacional do país. A relação buscada pelo governo, segundo ele, se baseia em “reciprocidade e justiça”.

Na véspera do encontro, a expectativa em torno da cúpula já se refletia nos mercados asiáticos. De acordo com dados compilados pela agência Reuters, as ações chinesas tiveram a maior queda diária em um mês naquela quarta-feira (23): o índice de Xangai (SSEC) recuou 1,22%, o CSI300 — que reúne as maiores empresas de Xangai e Shenzhen — caiu 1,73% e o Hang Seng, de Hong Kong, perdeu 0,29%. Na contramão, o Nikkei, do Japão, avançou 0,76%, e o Kospi, da Coreia do Sul, subiu 0,90%.

Na quinta-feira (24), Trump e Xi passaram o dia entre reuniões e compromissos conjuntos em Washington. Em um encontro pela manhã, os dois líderes sinalizaram a intenção de cooperar por um “futuro comum”: Xi reconheceu a rivalidade entre as duas maiores potências econômicas do mundo, mas pediu que os países evitem o confronto, enquanto Trump repetiu manter “uma verdadeira amizade” com o colega chinês, “baseada no respeito mútuo e o interesse do nosso povo”. À noite, em um jantar de gala oferecido por Trump na Casa Branca, Xi afirmou que os dois países “alcançaram um entendimento comum em muitas questões” e devem encontrar novas formas de entendimento entre si — os discursos não abriram espaço para perguntas de jornalistas. Entre os temas tratados no encontro estavam tarifas, terras raras, compras de produtos agrícolas, inteligência artificial, chips, aviação e investimentos, além de questões geopolíticas como Taiwan e Irã.

A repercussão também chegou aos mercados: nesta sexta-feira (25), as ações chinesas fecharam em queda na Ásia, com os setores de seguros e tecnologia liderando as perdas enquanto investidores aguardavam mais detalhes do encontro entre Trump e Xi, segundo dados da Reuters. O Hang Seng, de Hong Kong, caiu 1,01%, enquanto o Nikkei, do Japão, avançou 1,30%. Já o Kospi, da Coreia do Sul, o SSEC, de Xangai, e o CSI300 não operaram por conta de um feriado local.

Linha direta de IA com futuro incerto

Os dois países também acertaram criar um canal direto de comunicação para avisar um ao outro sobre incidentes de segurança envolvendo inteligência artificial. A resposta chinesa ao plano, no entanto, não ficou clara: a agência estatal Xinhua apenas reconheceu que o tema foi discutido.

Analistas das relações entre os dois países veem pouca chance de cooperação efetiva na área, pela falta de confiança mútua e porque nenhum dos dois demonstrou interesse real em desacelerar a tecnologia. Na véspera da cúpula, Trump afirmou que a inteligência artificial seria o “grande tema” do encontro com Xi e reiterou que não pretende “frear” o crescimento da tecnologia nem abrir mão da liderança americana no que já chama de “superinteligência” — postura que mantém apesar dos apelos de CEOs de empresas do setor para que o avanço da IA seja desacelerado diante dos riscos de uma tecnologia fora de controle, e que ele justifica pelo temor de ver a China ultrapassar os Estados Unidos nesse campo. A inteligência artificial de fato esteve entre os temas discutidos no encontro entre os dois líderes, embora sem detalhes públicos sobre avanços concretos no canal de comunicação proposto.