O governo brasileiro classificou como “muito grave” o acordo que colocou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em uma lista de organizações narcoterroristas transnacionais assinada pelos Estados Unidos e outros 14 países, segundo apuração do g1.
O documento, firmado na terça-feira (22) por integrantes do “Escudo das Américas”, reúne 24 grupos criminosos e acendeu no núcleo diplomático o alerta de que Washington prepara uma doutrina de segurança capaz de amparar ações unilaterais na região.
Uma coalizão que já nasceu com vocação militar
Assinam o texto como membros plenos Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago — entre eles três vizinhos do Brasil. O “Escudo das Américas” não nasceu nesta semana: a aliança foi lançada por Donald Trump em março, com o objetivo declarado de mobilizar os Exércitos latino-americanos contra o crime organizado.
Brasília não teve acesso prévio à versão final da declaração, mas auxiliares presidenciais dizem que o conteúdo não surpreendeu. Movimentações recentes dos Estados Unidos na região, inclusive no tabuleiro político da Nicarágua, já sinalizavam a intenção de transformar o combate às facções em eixo da relação com os países vizinhos e de endurecer a pressão sobre os governos locais.
Para integrantes do governo que acompanham as negociações em Nova York, o texto marca uma virada de método: em vez de cooperação bilateral, três frentes de pressão combinadas — diplomática, econômica e de segurança. A nova sanção amplia um movimento iniciado em maio, quando os Estados Unidos rotularam PCC e CV de organizações terroristas sem avisar previamente o governo brasileiro. A leitura do Itamaraty é que esse conjunto de medidas pode ser usado para justificar operações à revelia do direito internacional.
A “vacina tetravalente” levada à ONU
Sabendo que a diplomacia americana negociava a declaração com aliados, o Planalto montou uma resposta antecipada — apelidada internamente de “vacina tetravalente”. O recado foi entregue por Luiz Inácio Lula da Silva na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, antes do discurso de Trump e da reunião da coalizão.
Ao dizer que o país não vai “terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras”, que “não precisa de porta-aviões” e que o “Brasil não cabe no quintal de ninguém”, o presidente rejeitou qualquer tutela militar estrangeira sobre a segurança pública nacional. O argumento repete o que ele já havia sustentado em maio: cabe ao Brasil, com suas próprias leis, enfrentar PCC e CV.
O próximo passo é a OEA
A declaração prevê levar o tema à Organização dos Estados Americanos, com pedido de convocação de reunião do Conselho com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), para discutir uma resolução de ações coletivas contra os grupos listados. O pedido não tem efeito automático: precisa ser aprovado pelos países do tratado antes que qualquer medida seja debatida.
Enquanto isso, o governo não espera rupturas na cooperação de fronteira: troca de informações e ações de inteligência devem seguir pelos acordos bilaterais em vigor. Parte dos diplomatas brasileiros aposta que muitos signatários assinaram sob pressão, não têm capacidade operacional para executar o que prometeram e têm interesse em preservar a relação com o Brasil.