A Força Aérea Brasileira testa, desde 31 de agosto, o resgate por paraquedas de um laboratório espacial lançado no Rio Grande do Norte. A operação, batizada Potiguar 2, ocorre no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, e deve terminar em 19 de setembro.
Se o teste for bem-sucedido, será a primeira vez que uma plataforma brasileira recupera intactas amostras de experimentos feitos a mais de 100 km de altitude — hoje, os dados desse tipo de pesquisa chegam ao solo apenas por telemetria.
Como funciona o teste suborbital
A Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R) é lançada acoplada ao foguete VS-30 V16, desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço. Com nove metros de comprimento — equivalente a um prédio de três andares —, o veículo funciona por cerca de 30 segundos antes de a plataforma se desacoplar e seguir em trajetória de parábola até ultrapassar os 100 km de altitude, dez vezes mais alto do que voa um avião comercial.
No ponto mais alto do trajeto, a plataforma entra em microgravidade — condição em que a influência da gravidade é reduzida, não eliminada — e os experimentos embarcados são acionados. Em seguida, o equipamento inicia a queda livre, abre o paraquedas e desce até o mar, onde é localizado por sinais de GPS e resgatado por helicóptero da FAB.
Por que recuperar as amostras importa
Segundo o especialista em voos aeroespaciais Rui Botelho, cristais produzidos em solo carregam imperfeições causadas pela gravidade. No espaço, crescem mais simétricos — como demonstrou a missão da Varda Space Industries, que cristalizou o antirretroviral Ritonavir em órbita em 2023. Diferente da telemetria, só a recuperação física permite esse tipo de análise, e a plataforma pode ser reutilizada até quatro vezes, reduzindo custos das próximas missões.
Agricultura espacial e a corrida por satélites
Um dos experimentos a bordo é um Cubesat 1U com microrganismos liofilizados e biodosímetros de radiação, conduzido pelo professor Paulo Hercílio Viegas Rodrigues, da Esalq-USP. A equipe quer verificar se fungos e bactérias resistem às condições extremas do voo e mantêm viabilidade após o retorno — dado comparado a um grupo de controle mantido em Terra, sob microgravidade simulada por clinorotação.
O esforço vai além do laboratório suborbital: o Brasil já negocia com a NASA o envio de um experimento da Embrapa para cultivar alimentos em bases lunares, o que revela o peso estratégico que Brasília atribui à pesquisa de agricultura espacial.
O presidente da Agência Espacial Brasileira, Marco Antonio Chamon, lembra que existem hoje cerca de 18 mil satélites em órbita e que esse número pode chegar a 500 mil até 2040. A corrida que se intensificou com a missão Artemis 2 — disputando recursos e posição estratégica na Lua — ajuda a entender por que o Brasil investe em ter uma plataforma suborbital própria, com lançamentos periódicos a partir do Centro de Alcântara.