A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mudou nesta terça-feira (1º) as regras da Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), principal programa de intercâmbio científico do estado paulista.
Alunos de graduação e mestrado não poderão mais pedir a bolsa a qualquer momento — o acesso passa a depender de editais específicos. Doutorandos e pós-doutorandos seguem elegíveis, mas o tempo máximo no exterior caiu de 12 para 6 meses.
À Fapesp, a fundação nega corte de orçamento e diz que o ajuste nos critérios era necessário diante da explosão na procura por bolsas nos últimos anos.
Estudantes e entidades criticam o “enxugamento”
João Marcelo Alves, doutorando em Física na Universidade Federal do ABC (UFABC), havia acabado de submeter sua proposta para o BEPE quando as novas regras foram anunciadas. Ele estuda simulações computacionais aplicadas a energia solar e diz que terá de refazer todo o cronograma da pesquisa.
“Fui surpreendido por essa mudança de regra na duração da bolsa. Vou perder tempo de pesquisa e de colaboração com cientistas dos Estados Unidos”, afirma.
A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) também se posicionou contra a decisão, argumentando que a internacionalização não é um benefício acessório da pós-graduação, mas parte estratégica da formação científica brasileira.
O momento chama atenção porque o país já vinha de sinais de fragilidade na cena acadêmica internacional: em junho, o CWUR 2026 apontou que 87% das universidades brasileiras perderam posições no ranking mundial, um recuo associado justamente ao financiamento insuficiente da pesquisa.
Os números por trás do ajuste
A Fapesp nega corte de verba e atribui a mudança a um salto na demanda: o total de bolsas contratadas para pesquisadores individuais saltou 73% entre 2023 e 2025 (de 7.610 para 13.180), enquanto as bolsas no exterior, a maioria BEPE, cresceram 52% no período.
Parte da procura é puxada pelos valores pagos pela fundação paulista, bem acima da média federal: uma bolsa de doutorado do CNPq gira em torno de R$ 3.400, contra mais de R$ 7 mil na Fapesp — e mais de R$ 12 mil no pós-doutorado. A fundação também associa o movimento à retração de agências federais, como a CAPES, cuja concessão de bolsas de doutorado em São Paulo encolheu cerca de 7% em dois anos.
Como consequência, o gasto com bolsas passou de uma média histórica de 35% do orçamento da Fapesp para 58% em junho de 2026, patamar que a instituição classifica como risco para sua saúde financeira de longo prazo.
O cenário externo tampouco ajuda quem mira os Estados Unidos, destino comum do BEPE: o governo Trump propõe limitar a duração de vistos para estudantes estrangeiros, o que pode dificultar ainda mais estadias de pesquisa mais longas no país.