Pesquisadores brasileiros descobriram que o DMT, principal composto psicodélico da ayahuasca, é capaz de estimular células-tronco neurais humanas a se multiplicarem em laboratório.
O achado, publicado por equipes ligadas à UFRJ, UNIRIO e ao Instituto D’Or, expôs células humanas reprogramadas à substância por 24 horas e detectou aumento expressivo de proteínas ligadas à sobrevivência e ao crescimento neuronal.
Como o experimento foi feito
A equipe recorreu à reprogramação celular, técnica reconhecida com o Nobel de 2012, para transformar células adultas humanas em células-tronco neurais cultivadas em laboratório. Expostas ao DMT por 24 horas, essas células passaram a se multiplicar mais do que as não expostas, segundo marcadores que indicam cópia do material genético.
A substância também elevou a produção de duas moléculas associadas à sobrevivência e adaptação neuronal: o BDNF, fator ligado a antidepressivos, subiu cerca de cinco vezes, enquanto o Fator de Crescimento do Nervo (NGF) teve alta ainda maior, próxima de dez vezes.
No dia seguinte, sem qualquer DMT no meio de cultura, as células antes expostas formaram agrupamentos — as neuroesferas — maiores e mais ativas metabolicamente, mantendo a mesma proporção de tipos celulares dos grupos de controle. Ou seja, houve mais células, não células diferentes.
O que ainda é incerto
Os resultados, obtidos em células cultivadas e não em um cérebro vivo, não permitem afirmar que o DMT gera neurônios funcionais em pessoas. Estudos anteriores em roedores, como um trabalho espanhol de 2020 e uma pesquisa brasileira de 2026, já haviam associado a substância a sinais de neurogênese, mas com protocolos distintos.
Cientistas da UFRN testam atualmente os efeitos terapêuticos do DMT em humanos e relatam alívio rápido de sintomas depressivos após uma única dose. No setor privado, uma formulação bucal sintética da substância também está em estudo clínico para depressão resistente a tratamentos convencionais.
A pesquisa teve apoio da Capes, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, do programa de pós-graduação em Ciências Morfológicas da UFRJ, da Promega Corporation e da Unirio.
