O ministro Kassio Nunes Marques se declarou impedido de votar na terça-feira (15/9) na sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que avalia a conduta de Alexandre de Moraes, após mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro citarem seu nome e o de seu filho.
Ao pedir a palavra no início da sessão, Nunes Marques negou ter trocado mensagens com Vorcaro e afirmou não se sentir confortável em julgar o caso na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Tenho uma missão que me foi conferida pela Constituição brasileira. Entendo que essa missão é mais importante, que é assegurar o equilíbrio nas eleições de 2026”, disse ao justificar o impedimento.
O impedimento foi declarado logo após o presidente do STF, ministro Edson Fachin, apresentar seu relatório sobre a conduta de Moraes na abertura da sessão.
Mensagens citam filho do ministro
Os nomes de Nunes Marques e do filho dele, Kevin Marques, apareceram em diálogos extraídos do celular de Vorcaro. As trocas de mensagens remontam a outubro de 2024: o ex-diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, informou a Vorcaro que o banco havia saído vitorioso no processo da “Alcídia” — uma disputa sobre precatórios do setor sucroalcooleiro — e citou entre os votos favoráveis os dos ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques. Na sequência, Rennó encaminhou o contato de Kevin Marques com a mensagem: “Dominado aqui”.
Em 4 de julho de 2025, Rennó voltou a citar o filho do ministro em nova conversa com Vorcaro. Encaminhou o contato de Kevin e perguntou: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”, em referência a R$ 500 mil por mês. Em agosto do mesmo ano, uma nova mensagem retomou o assunto: “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”.
A Consult é a empresa Consult Inteligência Tributária. De acordo com os diálogos, os pagamentos seriam feitos por meio dessa empresa, que pertence a um sócio do filho do ministro e compartilha o mesmo endereço de e-mail do IPTF (Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária), de titularidade de Kevin Marques. Em nota, a defesa de Kevin afirmou que ele não prestou serviço ao Banco Master nem recebeu dinheiro de Vorcaro.
O vínculo institucional citado por Nunes Marques não é novo: em junho, ele já havia se designado relator de ações ligadas a Vorcaro no TSE, o mesmo cargo que agora usa para justificar o impedimento.
Sessão chega tensa ao plenário
O impedimento de Nunes Marques ocorreu um dia depois de a Polícia Federal informar que entregou cópias dos dados extraídos do celular de Vorcaro aos gabinetes de Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, na segunda-feira (14/9).
Até a véspera, o STF ainda debatia se o próprio Moraes deveria participar da votação, com o nome de Nunes Marques já cotado entre os ministros com possível vínculo ao material apreendido.
Os bastidores também mostravam movimentação prévia: aliados de Moraes trabalhavam para esvaziar a investigação contra o ministro no STF antes mesmo do início da sessão.
O mesmo material da PF revelou ainda uma tentativa de aproximação com o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF. Em fevereiro de 2025, o advogado Ciro Soares pediu a Vorcaro que ligasse, dizendo estar ao lado de “André M.”. Dias depois, enviou ao banqueiro uma foto ao lado do ministro e escreveu: “O A.M quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes.” O deputado Cezinha de Madureira, apontado como intermediário da aproximação, foi alvo de operação da PF na segunda-feira (14/9), investigado por tráfico de influência.
Os diálogos incluem também conversas com Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux. Em novembro de 2024, Vorcaro tentou marcar um encontro dizendo que gostaria de contar com o filho do ministro para ajudar em um caso. O banqueiro também ofereceu área vip no camarote de carnaval em 2025: “Tem para todos os dias! Pode chamar filho e sogra tb. Amigos, quantos quiser.”
A crise ganhou novo desdobramento nesta segunda-feira (21/9), quando o próprio Alexandre de Moraes se declarou impedido de analisar um mandado de segurança que pede acesso aos registros de entrada e saída de sua esposa, a advogada Viviane Barci, e de Vorcaro no Senado. Com base no artigo 144, inciso IV, do Código de Processo Civil — que impede o magistrado de julgar caso em que um parente figura como parte —, Moraes determinou o encaminhamento do processo a Fachin, que deverá escolher um novo relator. A ação foi movida pelo vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo), que também pede os registros de entrada e saída do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula. Segundo o vereador, o Senado já havia negado os pedidos de acesso por envolverem informações de caráter pessoal.