Um estudo divulgado nesta sexta-feira (4) pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) aponta indícios de fraude sistêmica no Provão Paulista, vestibular seriado que seleciona alunos da rede estadual paulista para universidades públicas.
A análise identificou 4.305 desempenhos estatisticamente atípicos entre estudantes do 3º ano em 2025 — quase 13 vezes mais do que o esperado —, com metade concentrada em apenas 50 escolas estaduais.
O estudo aponta ainda associação entre notas atípicas e convocações para vagas em instituições como USP, Unicamp e Unesp, o que motivou a recomendação de suspender o exame como critério de bonificação escolar.
Concentração em escolas e regiões
Segundo a Nota Técnica assinada por pesquisadores da REPU, a proporção de resultados atípicos entre estudantes do 3º ano da rede estadual saltou de 0,49% em 2024 para 1,91% em 2025. Nas Escolas Técnicas Estaduais (ETECs), o índice ficou em 0,17%, considerado compatível com a normalidade estatística.
Metade dos 4.305 desempenhos extraordinários registrados em 2025 estava concentrada em apenas 50 unidades — 1,4% das escolas participantes. Em 44 delas, mais de 40% dos alunos tiveram notas atípicas, e em algumas o percentual superou 90%. A distribuição regional seguiu padrão semelhante: 8 das 91 Unidades Regionais de Ensino do estado concentraram metade das ocorrências.
Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP, e Leonardo Crochik, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), assinam o estudo. Eles afirmam que a análise não permite apontar fraude individual, mas sustenta a hipótese de um problema institucional recorrente em diferentes regiões do estado.
Ligação com convocações para universidades
Dos 14.271 estudantes da rede estadual convocados via Provão Paulista para o primeiro semestre de 2026, 1.608 vinham de 128 escolas com mais de 20% de resultados atípicos. Em nove unidades com mais de 75% de notas fora do padrão, 192 dos 225 alunos foram convocados para USP, Unicamp, Unesp ou Fatecs.
Seduc-SP rebate as conclusões
Em nota, a Secretaria da Educação de São Paulo classificou como “correlação temerária” associar resultados atípicos a fraude sem evidências individualizadas. A pasta cruzou dados de 34 escolas citadas no estudo com o Saeb, avaliação do Inep aplicada por equipe externa, e afirma que 22 delas tiveram desempenho elevado ou evolução relevante em Matemática — o que, segundo a secretaria, enfraquece a tese de irregularidade generalizada.
A Seduc-SP reconhece seis casos de estudantes flagrados com celular durante a prova em 2025, com provas anuladas, mas nega que a integridade do exame tenha sido comprometida.
Bonificação sob suspeita
O número de escolas premiadas também chamou atenção dos pesquisadores: 559 unidades receberam bonificação “Ouro” ou “Diamante” pelos resultados de 2024, contra 2.839 com bonificação “Ouro” em 2025. Para a REPU, o sistema de recompensas e punições pode ter criado incentivo à inflação de notas — fenômeno semelhante ao identificado em redes estaduais que elevaram o Ideb ao flexibilizar regras de aprovação sem ganho real de aprendizado.
A REPU recomenda suspender o uso do exame para fins de bonificação e responsabilização de escolas, separar a avaliação de ensino do processo seletivo e divulgar integralmente os microdados antes da aplicação do Provão Paulista em 2026.