O Ideb do ensino médio subiu de 4,1 para 4,3 em 2025, divulgado nesta quarta-feira (5), mas segue distante da meta de 5,2, prevista para 2021 e nunca renovada.
O avanço nacional esconde uma prática que preocupa especialistas: redes estaduais como Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte flexibilizaram as regras de aprovação e elevaram o índice sem melhora real no aprendizado, medido pelo Saeb.
Já Paraná, líder do ranking, Piauí, Rio Grande do Sul e Goiás mostraram avanço consistente, com ganhos reais nas notas de matemática e português.
Como a aprovação foi flexibilizada
No Rio Grande do Norte, uma portaria de julho de 2025 passou a permitir que alunos do 1º e 2º ano do ensino médio avancem de série mesmo reprovados em até seis componentes curriculares, cursando as disciplinas pendentes em regime de dependência no ano seguinte, sem exigência de frequência mínima de 75% nessas atividades.
O efeito no fluxo escolar foi imediato: a aprovação no 1º ano saltou de 67,9% em 2023 para 87,9% em 2025, um salto de 20 pontos percentuais, enquanto no 2º ano o índice foi de 79,1% para 95,8% no mesmo período. Mas o desempenho no Saeb, que mede o que o aluno efetivamente aprendeu, ficou praticamente estagnado, especialmente em matemática.
Ricardo Madeira, gerente do Instituto Unibanco e professor da USP, afirma que esse tipo de manobra para inflar o Ideb por meio de regras de aprovação tem “data de validade” — ou seja, tende a não se sustentar nas próximas edições do índice.
Onde o avanço foi real
Nem toda alta representa maquiagem estatística. O Rio Grande do Sul também mudou regras de aprovação, mas saltou de 3,9 para 4,7 no Ideb com ganhos genuínos de proficiência: de 273,70 para 282,88 em matemática e de 281,07 para 291,94 em português. Piauí, Alagoas e Minas Gerais seguiram o mesmo caminho, com melhora simultânea no fluxo e nas notas do Saeb.
A maioria das redes estaduais permanece no nível 2 da escala do Saeb — caso de Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Bahia e outros estados —, o que indica que os alunos ainda não dominam habilidades básicas de leitura e matemática esperadas para a etapa. Apenas nove redes, entre elas Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo, alcançaram o nível 3.
Risco da reprovação em massa
Especialistas brasileiros e internacionais alertam que a reprovação indiscriminada aumenta o risco de abandono escolar entre adolescentes. Por isso defendem sistemas de recuperação de aprendizagem contínua, que permitem ao estudante avançar sem lacunas, em vez de simplesmente aprovar sem base de conhecimento.
A ONG Todos Pela Educação reforça que o Paraná, que já tinha bons números em 2023, segue como líder nacional do Ideb no ensino médio. Já a meta de 5,2 para o Brasil, que deveria ter sido cumprida em 2021, segue sem previsão de revisão — sinal de que o problema de aprendizagem no ensino médio público ainda está longe de ser resolvido.