Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, admitiu em depoimento à Polícia Federal ter bancado uma viagem à Disney, nos Estados Unidos, para a família de Paulo Sérgio Neves de Sousa, ex-diretor de fiscalização do Banco Central.
O depoimento foi prestado na sexta-feira (28/8) e integra o inquérito que apura se Paulo Sérgio e a ex-chefe de departamento Bellini Santana receberam vantagens indevidas para atuar em favor do Master.
Apesar de reconhecer o chamado agrado, Vorcaro negou ter pago propina aos dois servidores.
O que Vorcaro disse à PF
Segundo o depoimento, ao qual a TV Globo teve acesso, o ex-banqueiro tratou o custeio da viagem como uma cortesia pessoal a Paulo Sérgio, e não como pagamento por favores. Ele negou qualquer ato de corrupção envolvendo os dois servidores citados no inquérito.
Paulo Sérgio era ex-diretor de fiscalização do BC, e Bellini Santana, ex-chefe de departamento da área de supervisão bancária. Os dois foram afastados em março pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, depois que a terceira fase da Operação Compliance Zero expôs o esquema de consultoria ilegal que os vinculava ao banqueiro.
As investigações apontam que os servidores davam orientações estratégicas sobre processos administrativos e regulatórios do BC envolvendo o Master, revisavam documentos enviados pelo banco e vazavam informações para que Vorcaro se antecipasse a medidas da autoridade monetária.
Contexto da prisão e da defesa
Vorcaro está preso preventivamente desde março. Antes disso, havia sido detido na primeira fase da Compliance Zero, em novembro de 2025, mas foi solto dias depois por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A oitiva da sexta-feira (28/8) ocorreu dias depois de a PF confirmar que colheria o depoimento do ex-banqueiro para apurar as suspeitas de propina ligadas ao Master.
Em nota, a defesa de Vorcaro afirmou que esta foi a primeira oportunidade dada a ele para se manifestar diretamente sobre parte dos fatos apurados. Os advogados disseram que o ex-banqueiro respondeu “de forma clara e consistente” às perguntas e reafirmou não ter havido corrupção envolvendo os servidores do BC.
A defesa de Paulo Sérgio também se manifestou sobre a viagem. Os advogados sustentaram que todos os custos da ida de Paulo Sérgio e sua família a Orlando, na Flórida, foram pagos pelo próprio servidor e “devidamente comprovadas”. A defesa afirmou que Paulo Sérgio “tem demonstrado sua atuação escorreita na regulação prudencial e supervisão” no BC e sustentou não haver “quaisquer elementos de prova que permitam a ilação de que Paulo Sérgio e sua equipe tenham de qualquer modo beneficiado Daniel Vorcaro”.
PF detalha esquema de assessoria e pagamentos
Na quinta-feira (10/9), o ministro André Mendonça levantou o sigilo das principais investigações relacionadas ao caso Master que tramitam no STF, atendendo a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin. Com a abertura dos documentos, relatórios da PF tornaram-se públicos na sexta-feira (11/9) e revelaram a extensão da atuação dos dois servidores afastados.
Segundo os documentos, Paulo Sérgio e Bellini Santana operaram de forma reiterada como consultores informais de Vorcaro — orientando em detalhes, revisando minutas e intervindo em temas de supervisão bancária em benefício do Banco Master. A PF concluiu que a conduta de Paulo Sérgio “passa a assumir contornos de verdadeira assessoria paralela”.
Um dos episódios descritos é uma mensagem de 21 de dezembro de 2023, em que Paulo Sérgio sugere pautas para uma reunião de Vorcaro com o “Presi” — identificado pela PF como Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central. As orientações envolviam a estratégia para apresentar a aquisição do Banco Will ao regulador. O Banco Master, em conjunto com a Reag Investimentos, comprou o Will em fevereiro de 2024; o BC decretou a liquidação extrajudicial da instituição em janeiro de 2026.
Em outubro de 2025, Bellini criou um grupo de mensagens com Vorcaro e Paulo Sérgio, afirmando querer “facilitar a interlocução”. A PF ressalta que os temas discutidos não tinham “nenhuma relação com o cargo” de Bellini no BC, mas sim com os interesses do ex-banqueiro e de seus negócios.
Os relatórios também expõem evidências de pagamentos. Mensagens trocadas entre Vorcaro e seu associado Fabiano Zettel registram cobranças periódicas por valores devidos a Bellini, com repasses intermediados por terceiros. Em outubro de 2024, uma mensagem indica que parte de um envio a Leonardo Palhares se destinava ao pagamento a Bellini — no valor de R$ 760.000. A PF aponta ainda que Vorcaro realizou pagamentos a Bellini durante uma viagem à França.
Como desdobramento do inquérito, a PF também determinou a intimação de testemunhas de alto perfil. Em ofício assinado em 3 de agosto, foram chamados para depor o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; o ex-presidente da instituição, Roberto Campos Neto; o atual diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos; e o dono do BTG Pactual, André Esteves. Todos foram intimados na condição de testemunhas, com o compromisso legal de falar a verdade. A defesa de Campos Neto afirmou, ao ser divulgada a informação em 9 de setembro, que ainda não havia sido notificada e que não tinha conhecimento da existência do despacho.