A chegada de novos modelos de carros chineses ao Brasil, aliada a descontos mais agressivos das marcas tradicionais, derrubou os preços dos veículos seminovos no primeiro semestre de 2026.
Dados da Auto Avaliar mostram que os valores efetivamente negociados entre lojistas para carros de até três anos caíram 9,3% entre janeiro e junho — quase quatro vezes mais que a queda de 2,4% registrada pela tabela Fipe no período.
Modelos mais afetados e reação das montadoras
Entre os carros que mais perderam valor no primeiro semestre estão o Volkswagen Nivus e os Toyota Corolla Cross, Yaris e SW4, com desvalorização que passa dos 20% em alguns casos. Para conter a fuga de clientes, marcas tradicionais também baixaram preços e ampliaram condições comerciais em modelos como Hyundai Creta, Jeep Compass, Volkswagen T-Cross e o próprio Nivus.
As montadoras chinesas intensificaram os descontos entre maio e agosto: o Mitsubishi Outlander PHEV teve redução de R$ 55 mil, o Suzuki e-Vitara caiu R$ 50 mil, o Fiat Fastback Hybrid teve desconto de R$ 38,5 mil e o BYD Song Pro recuou R$ 28,5 mil — este último também impulsionado pela chegada do sucessor Song Pro Flex. Parte dessa avalanche de lançamentos tem origem na retração do mercado doméstico chinês, que já acumula dez meses seguidos de queda nas vendas e empurrou as fabricantes a exportar mais para o Brasil.
O interesse do consumidor brasileiro acompanha esse movimento: segundo o Data OLX Autos, as buscas por carros de marcas chinesas cresceram 124% entre janeiro e julho de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025, e 27% dessas buscas se concentram na faixa de R$ 100 mil a R$ 130 mil.
Seminovo pode custar mais caro que zero km
Segundo Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar, uma redução expressiva no preço de um carro novo muda imediatamente a referência usada pelo consumidor, elevando o risco de quem mantém um seminovo comprado com base em preços antigos. Em simulação da empresa, com um carro usado dado como entrada avaliado em R$ 88 mil, o veículo seminovo tinha preço anunciado mais baixo, mas terminava R$ 30 mil mais caro que um zero km ao considerar as condições de financiamento e os descontos aplicados ao carro novo.
A consultora Tereza Fernandez avalia que o movimento de queda dos seminovos está se consolidando em 2026 e pode gerar prejuízo para lojas com estoques elevados, embora não veja uma crise no segmento. Já Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, atribui parte da queda à maior confiança do consumidor, que passa a considerar a compra de um carro novo — inclusive chinês — em vez de um usado.
Pagliarini projeta que o mercado de veículos deve chegar perto de 3 milhões de unidades em 2026, número que poderia ser maior com condições melhores de financiamento. A expansão chinesa deve continuar: sete novas marcas do país devem desembarcar no Brasil até 2028, com a Chery projetando ultrapassar 10 mil vendas mensais ainda este ano, o que deve aprofundar ainda mais a pressão sobre os preços dos seminovos.