O SUS vai passar a oferecer, a partir de outubro, três medicamentos para o tratamento do câncer de pulmão: brigatinibe, gefitinibe e durvalumabe, segundo o Ministério da Saúde.
Cerca de 1,9 mil pacientes poderão ser beneficiados, conforme o estágio da doença e as características moleculares do tumor de cada um.
A oferta integra a Assistência Farmacêutica em Oncologia, política que reorganiza a compra de remédios oncológicos no SUS.
Terapias-alvo bloqueiam mutações específicas do tumor
Brigatinibe e gefitinibe pertencem ao grupo das terapias-alvo, que agem sobre mecanismos moleculares específicos usados por certos tumores para crescer — diferente da quimioterapia convencional, que interfere na multiplicação celular de forma mais ampla. Por isso, só são indicados depois que exames identificam determinadas alterações genéticas nas células tumorais.
Brigatinibe atua sobre a alteração ALK positiva
O brigatinibe é destinado a pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas, localmente avançado ou metastático, que apresentam a alteração ALK positiva. A Conitec recomendou sua incorporação como primeira linha em 2025, ampliando o arsenal que já contava com o crizotinibe. Estudos brasileiros publicados em julho mostraram que pacientes com ALK positivo no SUS sobreviviam três vezes menos que os da rede privada, cenário que reforça a urgência da chegada do novo medicamento à rede pública.
Gefitinibe bloqueia mutações no receptor EGFR
Já o gefitinibe age sobre o EGFR, receptor do fator de crescimento epidérmico. Mutações nesse gene mantêm sinais de crescimento ativados no tumor, e o remédio bloqueia essa comunicação. Sua incorporação foi aprovada em novembro de 2013, mas só agora ganha estrutura de financiamento para chegar aos pacientes. Desde 2024, o SUS também oferece o teste de RT-PCR que identifica a mutação e seleciona quem pode se beneficiar do tratamento.
Durvalumabe é imunoterapia para estágio III inoperável
O durvalumabe segue lógica diferente: em vez de atacar uma mutação, a imunoterapia retira mecanismos que o tumor usa para escapar do sistema imunológico, permitindo que as células de defesa voltem a reconhecer e atacar o câncer. No SUS, ele foi incorporado para pacientes em estágio III que não podem operar e cuja doença não avançou após quimioterapia e radioterapia combinadas — incorporação aprovada em abril de 2024.
AF-Onco muda o financiamento da oncologia no SUS
Os três medicamentos integram a AF-Onco, política que prevê a oferta de 23 remédios de alto custo, entre novas tecnologias e ampliações de uso de drogas já incorporadas. A meta do governo é alcançar mais de 100 mil pacientes, com orçamento anual de cerca de R$ 2,1 bilhões financiado pela União. Em julho, o ministério já havia listado 18 medicamentos de altíssimo custo, dos quais 17 terão participação federal na compra — por aquisição centralizada ou negociação nacional de preços.
A mudança busca enfrentar uma peculiaridade da oncologia no SUS: boa parte dos remédios contra o câncer é comprada pelos próprios hospitais habilitados, o que gera diferenças de preço e capacidade de compra entre serviços e dificulta a incorporação de tratamentos mais recentes e caros — como o brigatinibe e o durvalumabe, que somados podem ultrapassar R$ 1,2 milhão por ano na rede privada.
Distância entre aprovação e remédio na mão do paciente
O intervalo entre a incorporação de um medicamento e sua chegada aos serviços — caso do gefitinibe, aprovado em 2013 e só agora com estrutura de compra definida — já custou a vida de pacientes que aguardavam por remédios já aprovados, como Larissa Amorim. Para o durvalumabe, essa distância também levou pacientes à Justiça: uma mulher com câncer de pulmão recorreu duas vezes à Justiça para conseguir a imunoterapia pelo SUS, tipo de barreira que a nova política tenta reduzir. O Ministério da Saúde reforça que a entrega será gradual e dependerá de negociações com fornecedores.