Produtos médicos vendidos sem certificação do Inmetro, como medidores de pressão, termômetros, balanças e inaladores, já superam as vendas legais no mercado brasileiro, impulsionados pelo comércio eletrônico.
No primeiro semestre de 2026, foram comercializados 506 mil medidores de pressão irregulares no país, contra 446 mil unidades certificadas — uma diferença de 13,5% a favor dos produtos piratas, segundo o Inmetro.
Como a pirataria avança no comércio eletrônico
Segundo Marcelo Moraes, diretor do Inmetro, o crescimento dos produtos irregulares está diretamente ligado à popularização das compras pela internet, onde a facilidade de publicar anúncios favorece a circulação de itens sem controle de qualidade.
Para reverter o cenário, o órgão passou a usar inteligência artificial para rastrear ofertas fora de conformidade nas plataformas de e-commerce. Identificados os anúncios irregulares, o Inmetro notifica os responsáveis e solicita a retirada do conteúdo do ar.
A imprecisão é o principal risco desses equipamentos: uma balança pode indicar um peso diferente do real, um termômetro pode errar a temperatura corporal e inaladores ou nebulizadores podem liberar vapor em quantidade maior ou menor do que a indicada — falhas que passam despercebidas justamente por não haver certificação prévia.
Risco cardiovascular e prejuízo ao bolso do consumidor
A cardiologista Fátima Cintra alerta que o monitoramento da pressão arterial em casa é recomendado por médicos, mas precisa ser feito com equipamentos certificados pelo Inmetro. Segundo ela, leituras incorretas podem estar relacionadas ao aumento da mortalidade cardiovascular, já que o paciente pode acreditar que a pressão está normal quando, na prática, não está.
O problema não se limita à saúde: produtos vendidos sem fiscalização também podem gerar prejuízo financeiro ao consumidor, que paga por um item que não cumpre as especificações prometidas.
O mercado paralelo de produtos de saúde não se resume a equipamentos domésticos. Em abril, uma reportagem do Tropiquim mostrou que as apreensões de canetas emagrecedoras piratas vindas do Paraguai já superavam, só no primeiro trimestre, todo o volume apreendido no ano anterior, evidenciando que o consumidor brasileiro segue exposto a produtos sem controle sanitário.
A internet como vetor desse mercado ilegal também já havia sido identificada em outro contexto: receitas e atestados médicos falsos cresceram mais de 20 vezes no Telegram desde 2018, com as próprias plataformas lucrando com anúncios de grupos clandestinos, reforçando a dificuldade de fiscalizar o comércio digital de produtos e serviços de saúde.
Diante desse cenário, a recomendação é redobrar a atenção nas compras pela internet e verificar a presença do selo do Inmetro antes de fechar negócio.