A Organização Mundial da Saúde (OMS) defendeu nesta terça-feira (11) as evidências científicas dos calendários de vacinação infantil, após o presidente Donald Trump assinar decreto que reduz para 11 o número de vacinas recomendadas a crianças nos EUA.
Em coletiva em Genebra, o porta-voz da OMS Tarik Jašarević disse que as recomendações se baseiam em mais de 60 anos de pesquisas e pediu que os países sigam as melhores evidências científicas disponíveis.
Base científica dos calendários de vacinação
Segundo Jašarević, o momento de aplicação de cada vacina resulta de análise científica sobre a vulnerabilidade das pessoas a determinadas doenças e sobre o desenvolvimento do sistema imunológico. Ele explicou que os países costumam contar com grupos técnicos consultivos nacionais de imunização, formados por especialistas multidisciplinares que orientam governos e programas de vacinação com base nas diretrizes do Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em Imunização (Sage), ligado à OMS.
“O que a OMS apresenta tem base científica”, declarou o porta-voz, acrescentando que a organização espera que todos os países utilizem as melhores evidências disponíveis para definir seus esquemas vacinais.
O decreto assinado por Trump atende a uma pauta antiga do secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., que já questionou a segurança das vacinas e promoveu alegações sem comprovação científica que associam imunizantes ao autismo. A medida também recomenda dividir a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) em três doses separadas — a fabricante MSD afirmou não haver evidências publicadas que justifiquem a mudança e alertou que consultas em separado podem elevar o risco de atrasos ou omissões na vacinação infantil.
A defesa da OMS ganha peso diante de dados divulgados em julho: a taxa global de abandono do esquema vacinal infantil saltou de 4% para 12% em um ano, segundo relatório da organização com o Unicef.
Reações de associações médicas e fabricantes
Associações médicas, especialistas em saúde pública e fabricantes de vacinas criticaram o decreto, afirmando que não há novas evidências científicas que justifiquem as mudanças. Segundo essas entidades, o calendário vigente nos EUA reflete décadas de pesquisa e as necessidades específicas de saúde da população norte-americana, o que tornaria inválida a comparação com países que recomendam menos doses. Médicos alertaram que a redução do número de vacinas pode deixar mais crianças vulneráveis a doenças evitáveis e gerar confusão entre os pais sobre o momento correto de imunizar os filhos.
O decreto se soma a uma sequência de medidas do secretário Robert F. Kennedy Jr. contra a política de imunização dos EUA. No ano passado, ele já havia cancelado 22 projetos de pesquisa em vacinas de mRNA, com cortes de US$ 500 milhões, decisão que provocou reação semelhante da comunidade científica. Kennedy Jr. também remodelou a liderança do CDC: a diretora Susan Monarez foi demitida após recusar-se a endossar políticas consideradas anticientíficas, e o painel consultivo de vacinas da agência foi substituído por integrantes com posições antivacina.