Câmeras de monitoramento equipadas com inteligência artificial começam a ser usadas no Brasil para tentar prever crimes antes que aconteçam, analisando padrões de comportamento captados pelas lentes.
Empresas como a NoLeak já conectam mais de 5 mil câmeras a clientes como indústrias e condomínios, enquanto especialistas alertam para o risco de vigilância permanente sobre cidadãos que não cometeram nenhum crime, diante da ausência de regulação específica no país.
Como funciona o policiamento preditivo
Os sistemas mais avançados usam modelos de aprendizado de máquina treinados para reconhecer padrões em vídeos. Em vez de seguir apenas regras fixas, as ferramentas analisam grandes volumes de imagens para aprender o que é considerado comportamento normal e emitir alertas quando identificam desvios, como uma pessoa parada por tempo excessivo no mesmo local ou um carro circulando pela contramão.
“O sistema se conecta à câmera, transforma a imagem em metadados e reconhece padrões. Se o padrão da imagem for alterado, ele emite um alerta”, explica Nicolau Ramalho, fundador da NoLeak, empresa brasileira que já conecta mais de 5 mil câmeras e atende cerca de 100 clientes, entre indústrias e condomínios. Segundo ele, o sistema não age por conta própria: apenas recomenda que as imagens sejam revisadas por responsáveis de segurança, e não identifica rostos, apenas movimentações.
Além da NoLeak, empresas como Actuate, AxxonSoft e Coram também oferecem soluções para transformar câmeras convencionais em ferramentas de previsão de crimes, um mercado que ainda não tem regras específicas no Brasil.
Regulação ainda incipiente e risco de vieses
Para Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do IRIS-BH, avaliar a precisão desses sistemas e a ausência de vieses depende de estudos independentes, já que erros podem afetar cidadãos comuns. “Não estamos falando somente de criminosos que vão ser efetivamente alcançados, mas também de cidadãos comuns que, a caminho do trabalho, podem passar por um sistema que levou a um erro”, afirma.
Ela cita o caso do PredPol, usado nos Estados Unidos para orientar rondas policiais com base em dados históricos de criminalidade. A ferramenta levou policiais a patrulharem mais bairros de renda baixa e menor proporção de moradores brancos, aumentando abordagens indevidas. O programa foi abandonado pela polícia de Los Angeles em 2020 após pressão de grupos ativistas.
No Brasil, a LGPD regula o tratamento de dados sensíveis, como biometria facial, mas não há lei específica para policiamento preditivo. Uma portaria do Ministério da Justiça e Segurança Pública, de 2025, exige revisão humana em casos de risco a direitos fundamentais, e um projeto de lei aprovado no Senado e em discussão na Câmara pode classificar como de alto risco os sistemas de IA usados por policiais para identificar padrões comportamentais, exigindo supervisão humana e avaliação de impacto.