Uma equipe da USP e do Instituto de Pesquisas Ambientais identificou, pela primeira vez no Brasil, zircões com deformações de choque na Cratera de Colônia, na zona sul de São Paulo.
O achado confirma definitivamente que a estrutura, com 3,6 km de diâmetro, nasceu do impacto de um asteroide — e não de processos vulcânicos ou tectônicos, como se discutia antes das evidências microscópicas.
A descoberta, publicada na revista Earth and Planetary Science, partiu de 40 grãos coletados em sondagens da Sabesp na região de Parelheiros, feitas para viabilizar um poço artesiano de abastecimento local.
Como os zircões provam o impacto
Diferentemente de outros minerais, o zircão só se deforma sob condições extremas de pressão e temperatura — exatamente o que ocorre quando um corpo extraterrestre colide com a crosta terrestre. Processos geológicos comuns, como a tectônica de placas, não têm poder suficiente para produzir esse tipo de alteração microscópica.
Dos 40 grãos analisados, seis foram selecionados para caracterização detalhada por apresentarem o melhor estado de preservação. Os cristais, de cerca de 50 micrômetros cada, revelaram planar deformation features (PDFs) — finas linhas que atravessam o mineral em diferentes direções, resultado da propagação de ondas de choque.
“Os PDFs são praticamente uma impressão digital de que houve impactos de asteroides para a formação de crateras na superfície da crosta terrestre”, afirma Victor Velázquez Fernandez, docente da USP e autor do artigo. Os grãos também apresentaram textura granular, sinal de reorganização da estrutura cristalina interna após o choque.
Segundo o pesquisador, a próxima etapa da investigação será datar os grãos, o que deve ajudar a precisar quando o asteroide atingiu a região — informação ainda em aberto sobre a formação da cratera.
Uma cratera rara e sob ameaça
Identificada em 1964, a Cratera de Colônia só teve sua origem por impacto comprovada em 2013, pelo mesmo grupo de pesquisadores que agora identificou os zircões chocados. Com 3,6 km de diâmetro, a estrutura é uma das apenas oito crateras de impacto registradas no Brasil pelo Earth Impact Database.
O choque do asteroide teria gerado cerca de 40 mil bares de pressão e temperatura de 5 mil graus Celsius, com destruição estimada em um raio de 20 a 30 km. Ao longo de milhões de anos, a recomposição florestal e o intemperismo do clima tropical apagaram os vestígios visíveis do impacto, restando apenas as marcas microscópicas agora reveladas nos grãos de zircão.
Localizada na Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos e tombada em 2003 pelo Condephaat, a cratera segue ameaçada pelo avanço de ocupações irregulares. Em períodos de chuva, a água acumulada em seus sedimentos forma um aquífero raso que alimenta a Represa de Guarapiranga — um recurso que, sem saneamento básico na região, corre risco de contaminação.
“A geoconservação precisa envolver a comunidade. A população tem que se sentir pertencente àquele local, porque são eles que vão vigiar e cuidar desse patrimônio que os beneficia”, afirma Velázquez. O grupo da USP e do Instituto Geológico planeja agora dividir a pesquisa em duas frentes — científica e socioambiental — para aprofundar o estudo e engajar moradores na preservação do território.