A dois meses da eleição presidencial, o Brasil vive nesta terça-feira (5) uma escalada diplomática sem precedentes com dois parceiros históricos.
O Itamaraty rebaixou o nível das relações com a Argentina horas depois de os Estados Unidos revogarem o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Crise com a Argentina
A tensão com Buenos Aires começou no mês passado, quando o presidente argentino Javier Milei chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca” durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Moraes havia negado a Milei uma visita a Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar.
O Itamaraty convocou o embaixador argentino, Guillermo Daniel Raimondi, para expressar “repulsa”, mas Milei intensificou o tom no fim de semana, chamando Lula de “ladrão” e “corrupto” em programa de TV. Nesta terça, o governo brasileiro decidiu manter contato apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília — como mostrou o Tropiquim, um desfecho anunciado desde a convenção do PL, no fim de julho.
Crise com os Estados Unidos
Em paralelo, o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti em resposta à demora do Brasil em conceder o agrément — autorização protocolar — ao nome indicado por Washington para a embaixada em Brasília, Daniel Perez. Fontes afirmam que o Brasil não pretendia bloquear a indicação, mas os EUA quebraram o rito ao anunciar o nome antes de solicitar a autorização formalmente.
O atrito já vinha se acumulando: o Tropiquim mostrou que o Itamaraty já previa uma nova ofensiva americana após negar, em julho, vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que tentariam se reunir com autoridades eleitorais brasileiras.
O que esperar a partir de outubro
Para o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington e Londres, o Brasil nunca havia enfrentado uma crise com os EUA como a atual em toda a era republicana. Ele acredita que as relações com os dois países tendem a se normalizar após as eleições de outubro, dado o peso dos interesses econômicos em jogo.
Já o professor Felipe Krause, da Universidade de Oxford, vê maior chance de reaproximação com a Argentina do que com os Estados Unidos, já que Buenos Aires tem mais a perder com o afastamento do Mercosul — um cenário que o Tropiquim já havia identificado: divergências pessoais entre presidentes raramente rompem acordos estratégicos entre os dois países. Para Krause, o governo Trump, por outro lado, “tem menos a perder” no rompimento com Brasília.