Política

Brasil rebaixa relação com Argentina no mesmo dia em que EUA cassam visto de embaixadora

Dupla crise diplomática ganha contorno eleitoral, com Trump e Milei apoiando Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência
Lula entre Milei e Trump em montagem que ilustra a crise diplomática Brasil Argentina EUA

A dois meses da eleição presidencial, o Brasil viveu na terça-feira (5/8) uma escalada diplomática sem precedentes com dois parceiros históricos.

O Itamaraty rebaixou o nível das relações com a Argentina horas depois de os Estados Unidos revogarem o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

Crise com a Argentina

A tensão com Buenos Aires começou em julho, quando o presidente argentino Javier Milei chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca” durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Moraes havia negado a Milei uma visita a Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar.

O Itamaraty convocou o embaixador argentino, Guillermo Daniel Raimondi, para expressar “repulsa”, mas Milei intensificou o tom no fim de semana de 1 e 2 de agosto, chamando Lula de “ladrão” e “corrupto” em programa de TV. Na terça-feira (5/8), o governo brasileiro decidiu manter contato apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília — como mostrou o Tropiquim, um desfecho anunciado desde a convenção do PL, no fim de julho. O governo mantém o embaixador brasileiro em Buenos Aires no Brasil enquanto Milei não cessar os ataques ao presidente Lula e a outras autoridades brasileiras.

Os conflitos têm como pano de fundo as eleições de outubro: tanto Milei quanto Trump são apoiadores declarados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pela Presidência, e a proximidade de líderes estrangeiros com a oposição passou a ser explorada no debate político interno. Milei também criticou abertamente a política externa brasileira, acusando o país de estar se isolando do mundo.

Crise com os Estados Unidos

Em paralelo, o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti em resposta à demora do Brasil em conceder o agrément — autorização protocolar — ao nome indicado por Washington para a embaixada em Brasília, Daniel Perez. Fontes afirmam que o Brasil não pretendia bloquear a indicação, mas os EUA quebraram o rito ao anunciar o nome antes de solicitar a autorização formalmente.

O atrito já vinha se acumulando: o Tropiquim mostrou que o Itamaraty já previa uma nova ofensiva americana após negar, em julho, vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que tentariam se reunir com autoridades eleitorais brasileiras.

Em meio à crise, Lula sinalizou interesse em conversar por telefone com Trump. Nos últimos meses, o presidente tem buscado mostrar que o Brasil não está isolado no cenário global, com ligações para o presidente da China, Xi Jinping, e para o russo Vladimir Putin. Novas conversas com chefes de Estado devem ocorrer nas próximas semanas, segundo interlocutores do Palácio do Planalto.

O que esperar a partir de outubro

Para o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington e Londres, o Brasil nunca havia enfrentado uma crise com os EUA como a atual em toda a era republicana. Ele acredita que as relações com os dois países tendem a se normalizar após as eleições de outubro, dado o peso dos interesses econômicos em jogo.

Já o professor Felipe Krause, da Universidade de Oxford, vê maior chance de reaproximação com a Argentina do que com os Estados Unidos, já que Buenos Aires tem mais a perder com o afastamento do Mercosul — um cenário que o Tropiquim já havia identificado: divergências pessoais entre presidentes raramente rompem acordos estratégicos entre os dois países. Para Krause, o governo Trump, por outro lado, “tem menos a perder” no rompimento com Brasília.

A especialista Carolina Pavese destaca que os conflitos internacionais contribuem para a polarização da política doméstica. Integrantes do Planalto e do Itamaraty afirmam, no entanto, que a política externa busca manter canais de diálogo abertos e ampliar o protagonismo do Brasil em assuntos de interesse global.

Antes mesmo das eleições, a Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova York, deve ser um palco importante para o governo Lula — que tradicionalmente abre os discursos do encontro — apresentar as prioridades da política externa e rebater as acusações de isolamento.