O Itamaraty convocou o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, após Javier Milei chamar Lula de “presidiário” e classificar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de “lixo careca” na convenção que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A crise é a mais recente de uma sequência de atritos entre os dois presidentes desde 2023, mas especialistas em relações internacionais apontam um padrão: divergências pessoais raramente afetam acordos estratégicos entre Brasil e Argentina.
Um padrão histórico entre presidentes rivais
A tensão atual repete um roteiro visto entre 2019 e 2022, quando Jair Bolsonaro e Alberto Fernández ocupavam a Presidência de Brasil e Argentina. Bolsonaro apoiou publicamente o candidato de oposição argentina, Mauricio Macri, evitou cumprimentar Fernández após a derrota e não enviou representante à posse do argentino, rompendo um costume diplomático entre os países.
Mesmo com o desgaste pessoal, os dois países mantiveram negociações em comércio, energia, infraestrutura e no Mercosul. Em 2021, à frente do bloco, Bolsonaro chegou a criticar a gestão de Fernández, defendendo a redução da Tarifa Externa Comum e mais liberdade para os países-membros fecharem acordos comerciais individuais.
Convocação de embaixador e resposta de ministros
No episódio mais recente, o Itamaraty classificou as falas de Milei na convenção do PL como “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis” ao convocar o embaixador argentino para prestar esclarecimentos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço” e citou indicadores econômicos argentinos piores que os brasileiros, como risco-país, dívida pública e inflação.
Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, chamou o argentino de “caricatura patética” e “puxa-saco” do presidente americano Donald Trump. As duas respostas, porém, foram criticadas internamente no Palácio do Planalto e no Itamaraty por adotarem tom semelhante ao de Milei, na contramão da linha diplomática oficial do governo.
Mercosul segue blindado das crises políticas
Para a professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, a convocação de embaixadores integra os ritos diplomáticos tradicionais e não indica ruptura. Segundo ela, temas estratégicos como o comércio bilateral e o Mercosul seguem uma lógica de interesse entre os Estados, blindada das disputas pessoais entre presidentes.
Milei ainda republicou nas redes sociais uma série de críticas a Lula nos dias seguintes à convenção, dificultando qualquer tentativa do Itamaraty de encerrar o episódio em silêncio. Ainda assim, o chanceler argentino Pablo Quirno descartou uma ruptura formal entre os dois países, afirmando que os governos “veem o mundo de maneira diferente” mas pretendem manter a relação.
O professor Antônio Jorge Ramalho, da UnB, avalia que Milei busca protagonismo nas redes sociais “falando para a sua bolha”. Em 2022, após um encontro com Bolsonaro na Cúpula das Américas, Alberto Fernández resumiu o padrão que volta a se repetir: “Brasil e Argentina não podem estar brigados, acima de qualquer diferença política.”