Na Terra Indígena Jaraguá, na Grande São Paulo, o guarani Marcio Karai, 42, mantém colônias de 13 variedades de abelhas nativas sem ferrão, prática conhecida como meliponicultura.
O cuidado integra um esforço de comunidades indígenas para preservar polinizadores essenciais ao ecossistema, ameaçados no mundo todo por mudanças climáticas, desmatamento e pesticidas, segundo avaliação intergovernamental sobre biodiversidade de 2016.
Guardiões dos polinizadores
Enquanto manipula uma colmeia de madeira nos arredores da capital paulista, Karai transfere parte de uma colônia de abelhas Mirim para uma nova morada. A tarefa integra a rotina diária do meliponicultor, que cuida de 13 variedades nativas — entre elas as espécies Mirim e Jataí — na Terra Indígena Jaraguá, território de Mata Atlântica cada vez mais cercado pela expansão urbana de São Paulo.
A meliponicultura, manejo de abelhas sem ferrão, difere da apicultura tradicional praticada na Europa e na América do Norte: produz menos mel, mas de maior valor, e lida com insetos bem menores que a abelha-melífera-ocidental, que se defende com ferroadas para proteger a colmeia.
Ameaça silenciosa aos polinizadores
No Brasil, cientistas já identificaram cerca de 300 espécies de abelhas sem ferrão, segundo Osmar Malaspina, coordenador de um grupo de pesquisa em ecotoxicologia e conservação de abelhas da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele pondera que outras podem já ter desaparecido em razão da expansão agrícola. Uma avaliação intergovernamental sobre biodiversidade, de 2016, já apontava polinizadores silvestres ameaçados de extinção em diversas regiões do planeta.
Mel, cera e espiritualidade guarani
Para os Guarani, o mel e a cera das abelhas sem ferrão vão além da alimentação: têm papel central em rituais religiosos. Em cerimônias realizadas à noite, velas de cera — cada uma representando uma pessoa — ardem juntas no altar da comunidade. As velas são feitas pelas mulheres guarani, responsáveis por fortalecer o mundo espiritual segundo a tradição.
“É através do canto que a voz do povo guarani chega ao nosso deus, Nhanderu. É a vela e a fumaça da cera sendo queimada levando esse canto… subindo ao céu de Nhanderu”, descreve Karai, que aprendeu o ofício com o pai e o avô.
Ele torce para que o filho mais velho continue a tradição, mas teme que as próximas gerações prefiram empregos mais bem remunerados a cuidar das colônias. Entre as espécies que protege, Karai diz se identificar com a Jataí, que resiste às ameaças graças à proteção espiritual guarani. “Por mais que o não indígena tenha tentado nos eliminar, a gente resistiu. Entendemos que a Jataí vem também nesse mesmo processo de resistência”, afirma.