A mineradora Serra Verde opera, desde 2024, a primeira mina comercial de terras raras do Brasil, em Minaçu, norte de Goiás.
Menos de dois anos depois, relatórios do Ibama e da Semad, concluídos em março, confirmaram desmatamento de nascentes, poluição de córregos e falhas no monitoramento hídrico.
A empresa já acumula dez autos de infração e mais de R$ 14,5 milhões em multas.
Moradores da comunidade Pela Ema relatam água avermelhada, borra oleosa nas pedras e abortos em vacas desde o fim de 2024.
Disputa geopolítica por trás do discurso verde
O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, e soma 2.732 processos ativos na Agência Nacional de Mineração (ANM). Apenas sete têm autorização de lavra — todos em Minaçu, e pertencentes à Serra Verde Pesquisa e Mineração Ltda. Para o professor Ricardo Assis Gonçalves, da Universidade Estadual de Goiás, o discurso de transição energética esconde outro motor: a indústria bélica. “Por trás desse discurso de transição verde está a indústria bélica, utilizando desses minerais críticos explorados no sul global”, afirma.
Multas e embargos em Minaçu
Antes mesmo de vender seu primeiro lote, a Serra Verde teve a licença convertida para corretiva após fiscalização flagrar desmatamento de nascentes e ausência de estruturas de drenagem. Relatórios do Ibama, divulgados em abril pelo Observatório da Mineração, apontam que a empresa não corrigiu os danos. Ao todo, foram dez autos de infração, R$ 14,5 milhões em multas e sete embargos — a empresa ainda pode recorrer. Laudos confirmaram a poluição do córrego Areia, com turbidez e manganês acima do limite de potabilidade.
A expansão também avança em Nova Roma, onde a mineradora peruana Aclara Resources pesquisa em área sobreposta ao Território Quilombola Família Magalhães sem consulta prévia, e no entorno do território Kalunga, maior terra quilombola do país, que obteve na Justiça Federal a suspensão de novas autorizações de pesquisa mineral. A disputa por minerais críticos também mobiliza o Planalto — em julho, Lula reuniu ministros para discutir a política de minerais críticos, admitindo que o Brasil estava ‘quase analfabeto’ no tema diante da corrida entre China e Estados Unidos.
Regulação frouxa e territórios em disputa
Em Goiás, a Autoridade Estadual de Minerais Críticos (AMIC/GO), criada pela Lei nº 23.597/2025 sob o governo de Ronaldo Caiado, dá ressalvas às atribuições do órgão ambiental estadual, embora o decreto de regulamentação tenha incorporado a exigência de consulta prévia a comunidades tradicionais. No Congresso, o Projeto de Lei 2.780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos, foi aprovado na Câmara em regime de urgência, sem debate técnico. Todas as mineradoras hoje instaladas no estado são controladas por corporações dos Estados Unidos, e Serra Verde e Aclara já preveem enviar o material extraído para beneficiamento americano — um modelo que pesquisadores chamam de eco-colonialismo.
O impasse remete a outro caso de destaque nacional: os Cinta Larga, sentados sobre uma das maiores reservas de diamantes do mundo, também se dividem entre regular a exploração mineral em terra indígena ou preservar o território, debate que já chegou ao STF. Para a geógrafa Jemima Tosta Vieira, da UEG, soberania mineral não deve se resumir a atrair investimentos: “Sem justiça territorial, não há soberania. Sem a proteção do Cerrado, não há sustentabilidade”, afirma.
