Três anos depois de o Proconve entrar na fase mais rígida contra a poluição de caminhões, autônomos como Maria Aparecida Cezário Cavassani, 57, e Júnior de Oliveira, 35, continuam presos a veículos antigos por falta de crédito acessível para trocar de caminhão.
Levantamento via Lei de Acesso à Informação mostra que só 13 em cada 100 caminhões pesados do país já estão na fase P8, a mais recente e rigorosa contra a emissão de gases poluentes.
Emissões concentradas no transporte de carga
O setor de energia responde por 20% das emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil, e o transporte é responsável por mais da metade desse total, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Em 2024, o transporte de carga liderou as emissões do setor, com 80% geradas por caminhões movidos a diesel.
Esse peso do transporte rodoviário de carga já aparece em outras rotas do país: na BR-163, quase 2 milhões de caminhões respondem por 85% da poluição da mobilidade em cidades como Itaituba e Santarém, no fluxo que escoa a soja da Amazônia.
Financiamento desigual trava a troca de frota
Criado em 1986, o Proconve chegou em 2023 à fase P8 para veículos acima de 3.500 quilos, cortando 90% do material particulado liberado em relação à fase anterior. Ainda assim, dados obtidos via Lei de Acesso à Informação junto ao Ministério dos Transportes mostram que apenas 13% da frota pesada do país está nessa fase, e 41,65% dos veículos seguem na fase P7, anterior.
Para a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), o gargalo está no acesso ao Finame: empresas financiam até 100% do valor do caminhão com juros de 12% ao ano, enquanto autônomos pagam taxas de até 36% ao ano, quase o triplo. Das duas iniciativas de renovação de frota criadas nos últimos três anos, o Move Brasil reservou R$1 bilhão a autônomos, mas usou apenas 30% do valor, atendendo 531 clientes e retirando somente 13 caminhões com mais de 20 anos de circulação.
Governo amplia prazos, mas dívida ainda pesa no bolso do autônomo
Em abril, o BNDES ampliou o Move Brasil, elevando a carência para 12 meses e o prazo de pagamento para até 10 anos, com foco maior nos autônomos. Em nota, o banco informou que o volume reservado à categoria vai dobrar para R$2 bilhões e que cerca de 14 mil caminhões já foram apoiados entre frotistas e autônomos.
Para Erica Matos, gerente ambiental da Confederação Nacional do Transporte (CNT), universalizar a fase P8 entre os autônomos poderia melhorar em até 86% a qualidade do ar, mas exigiria um investimento de R$845 bilhões na troca de frota nacional.
O crédito travado não é exclusividade do transporte de carga: no Move Aplicativos, outro programa do BNDES com R$30 bilhões reservados para financiar carros usados, apenas 3% do valor havia sido usado até julho, travado pela aprovação dos financiamentos, e não pelas taxas de juros.
A renda do frete também pesa nessa equação: a ANTT já aplicou R$932,4 milhões em multas a transportadoras neste ano por pagamento abaixo do piso mínimo do frete, reduzindo a margem dos autônomos para poupar e trocar de caminhão.