A Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado Federal, apontou nesta quinta-feira (23) deterioração financeira perceptível em parte relevante das estatais federais, dependentes e não dependentes.
O órgão aponta patrimônio líquido negativo, fluxo de caixa deficitário e margens operacionais negativas em empresas como Correios, Codevasf, Emgepron e Infraero, o que eleva o risco fiscal para o Tesouro Nacional.
Dependentes e não dependentes: dois grupos, riscos diferentes
Entre as estatais dependentes, a IFI observa que Codevasf, CBTU, Embrapa, HCPA e EBSERH apresentam trajetória financeira que se afasta do padrão registrado nos exercícios anteriores a 2018, com patrimônio líquido negativo e fluxo de caixa operacional deficitário.
Já entre as não dependentes, os indicadores de margem operacional, exposição a receitas financeiras e qualidade do lucro revelam fragilidades distintas, mas igualmente relevantes, segundo o órgão ligado ao Senado.
Correios: rombo bilionário e novos empréstimos
O caso mais emblemático é o dos Correios, cujo prejuízo triplicou em 2025 e chegou a R$ 8,5 bilhões. O próprio governo federal reconhece que a estatal pode seguir piorando, mesmo com o plano de reestruturação em vigor — plano que, aliás, teve o fechamento de agências e a revisão de salários suspensos em julho, após resistência sindical.
Para cobrir o rombo, a empresa fechou em dezembro de 2025 um empréstimo de R$ 12 bilhões com um consórcio de bancos, com garantia do Tesouro Nacional. Em fevereiro, o Conselho Monetário Nacional abriu espaço para captar mais R$ 8 bilhões nas mesmas condições. Em maio, o governo autorizou os Correios a vender seguros, títulos de capitalização e a atuar no mercado de telefonia, via convênios com instituições financeiras.
No projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, enviado ao Congresso em abril, o próprio governo admite que as estatais federais, em déficit desde 2023, seguirão no vermelho até 2030.
Privatização fora do debate, risco fiscal em alta
A IFI evita entrar no mérito da privatização das estatais. O órgão argumenta que o tema é complexo, pois exige avaliar não só custos e benefícios de manter uma empresa sob controle estatal, mas também os retornos sociais esperados dela.
Ainda assim, o alerta reforça a pressão sobre as contas públicas: seja pela possibilidade de aportes e suplementações orçamentárias às estatais dependentes, seja pela menor capacidade de distribuição de dividendos pelas não dependentes.
O sinal de alerta chega em um momento já delicado para a política fiscal do país. A dívida bruta do governo atingiu em maio o maior nível em cinco anos, equivalente a 81,1% do PIB, após um déficit de R$ 56 bilhões no mês — cenário que amplia a relevância de qualquer novo fator de risco identificado pelo órgão técnico do Senado.
