Meio ambiente

Justiça manda condomínio de luxo demolir área de lazer dentro de reserva no Rio

MPF flagrou quadras, campo de futebol e pista de skate erguidos dentro de área de proteção integral no Rio de Janeiro
Condomínio de luxo Rebio Guaratiba construído dentro de reserva de Mata Atlântica protegida no Rio de Janeiro

A Justiça Federal determinou a demolição de quadras esportivas, campo de futebol e pista de skate construídos irregularmente por um condomínio de luxo dentro da Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro.

A sentença, resultado de ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal, também prevê indenização por danos ambientais e recuperação da área degradada, além de reconhecer a omissão da União e do Inea-RJ na fiscalização da unidade de conservação.

Como o condomínio avançou sobre a reserva

A decisão é resultado de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), após inquérito civil que apurou a instalação de estruturas de lazer do condomínio de alto padrão Reserva das Garças dentro dos limites da Rebio. Segundo o levantamento, a área ocupada irregularmente soma 1,24 hectare dentro da unidade de conservação, além de 0,14 hectare em Área de Preservação Permanente (APP).

O inquérito também identificou o lançamento de esgoto sanitário diretamente no Rio Engenho Novo, um dos cursos d’água que alimentam o manguezal protegido pela reserva.

A sentença destaca que os responsáveis pelo empreendimento já sabiam dos limites da Rebio antes de construir as quadras e o campo de futebol: o próprio projeto apresentado para aprovação do loteamento indicava a existência da reserva no local onde depois foi erguida a área de lazer. O loteamento tinha licença ambiental, mas a infraestrutura extra nunca constou no projeto licenciado.

Para o procurador da República Sérgio Suiama, responsável pela ação, a manutenção do imóvel contraria a própria natureza da unidade de conservação: “A Reserva Biológica é unidade de conservação do grupo de proteção integral, que não admite a presença humana, de modo que a manutenção do imóvel em seu interior vai contra seus objetivos de conservação, sendo necessária sua demolição”.

Quem paga a conta e o que muda na fiscalização

Pela sentença, cabe à Associação de Moradores Reserva das Garças promover a demolição das estruturas, apresentar um plano de recuperação ambiental e indenizar os danos causados pelo despejo de esgoto. Caso o condomínio não cumpra as determinações, a União e o Inea-RJ deverão executar subsidiariamente as medidas de recuperação previstas na decisão.

A Justiça também reconheceu falhas do Inea-RJ, órgão que administra a Rebio, e determinou que o instituto acompanhe a execução da demolição e sinalize fisicamente os limites da unidade de conservação, hoje com 3.360 hectares de manguezal preservado na Baía de Sepetiba, para evitar novas invasões.

O episódio ocorre em meio a um cenário de disputa sobre limites de áreas protegidas no país: dias antes, o Senado aprovou a redução de quase 40% da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, afrouxando a proteção de outra unidade de conservação na Amazônia — um contraste direto com a decisão que reforça a intangibilidade da Rebio de Guaratiba.

Conflitos entre obras e vegetação nativa protegida também não são exclusividade do Rio: em São Paulo, a Prefeitura recuou de uma obra de R$ 69 milhões após pressão popular e questionamento judicial sobre a supressão de Mata Atlântica no Butantã.

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