A Polícia Rodoviária Federal apreendeu 51,75 kg de ouro ilegal no primeiro semestre deste ano, alta de 830,76% frente ao mesmo período de 2025, quando menos de 6 kg do metal foram recolhidos nas estradas do país, segundo dados obtidos pelo g1.
Pará (26,52 kg) e Roraima (15,64 kg) concentram a maior parte das apreensões, sinal de que a fronteira amazônica virou o novo epicentro do garimpo clandestino de ouro no Brasil.
A lei que blindava o ouro sem origem
Até 2023, a Lei 12.844, de 2013, garantia a presunção de legalidade do ouro comprado e a boa-fé do comprador. Instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central podiam adquirir o metal sem exigir comprovação de origem, o que permitia a garimpeiros ilegais “lavar” o ouro e vendê-lo com aparência legal no mercado interno.
O cenário mudou em 2023: em março, a Receita Federal passou a exigir nota fiscal eletrônica para operações com ouro de garimpo e, em abril, o Supremo Tribunal Federal suspendeu a presunção de legalidade e a boa-fé do comprador previstas na lei.
Para Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas, o endurecimento das regras somado à valorização do metal empurrou o garimpo ilegal para a fronteira norte do país. Segundo o instituto, a produção oficial dos garimpos caiu 81% entre 2022 e 2025, para cerca de 5.800 kg, conforme dados da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM). Rodrigues avalia que parte dessa queda é real, com o recuo de garimpeiros, mas outra parcela seguiu sendo extraída de forma ilegal e passou a ser escoada para fora do país.
Mudança de rota e alerta ambiental
Entre 2020 e 2023, a PRF apreendeu cerca de 253 kg de ouro ao longo de quatro anos — volume menor do que os 261,76 kg recolhidos somente em 2024 e 2025. Além do salto no total, mudou também a geografia das apreensões, agora concentradas no Pará e em Roraima.
Neste ano, a corporação também registrou recorde na apreensão de mercúrio em Roraima, com mais de uma tonelada recolhida até junho. O metal é usado no garimpo para separar partículas de ouro e evapora quando aquecido, contaminando rios e solo na região.
O avanço do garimpo sobre a fronteira amazônica reedita um dilema já visto em outras regiões do país, como o das terras dos Cinta Larga, onde a falta de regulamentação da mineração também abriu espaço para a extração ilegal.
Nos cinco anos até janeiro deste ano, o ouro chegou a superar US$5.400 por onça troy, impulsionado por tensões globais, antes de recuar cerca de 26% do valor de mercado. Mesmo com a queda, a valorização histórica mantém o ouro brasileiro na mira do garimpo ilegal.