O aumento das tarifas de importação dos Estados Unidos pressionou o Brasil a acelerar acordos com novos parceiros comerciais, da União Europeia à Ásia, mas o movimento aprofundou a dependência das exportações brasileiras em relação à China.
Setores como café solúvel, aço, alumínio e cobre, que tinham nos EUA seu principal comprador, sentem o impacto das tarifas, enquanto especialistas alertam para o risco de concentrar quase um terço das vendas externas em um único parceiro.
Setores que dependiam dos EUA sentem o baque
No setor de café solúvel, 50% da exportação brasileira tinha como destino os Estados Unidos. “Eles aumentaram as vendas para outros destinos, mas mesmo assim a participação era muito grande. A mesma coisa ocorre com aço, alumínio e cobre”, explica Welber Barral, especialista em comércio internacional.
As barreiras também prejudicam os importadores americanos. Grandes empresas como Coca-Cola e Tesla já sinalizaram que não é simples substituir o café, o suco de laranja e os metais raros que compravam do Brasil com tarifas baixas — e quem paga a conta é o consumidor dos Estados Unidos.
Um dia antes do anúncio das novas alíquotas, o Brasil já flertava com o posto de segundo país mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, cenário que ajuda a explicar a pressa das empresas brasileiras em buscar outros mercados.
Para Carlos Frederico Coelho, professor de comércio internacional da PUC-Rio, o tarifaço apenas empurrou um processo que já estava em curso: “A consequência imediata é apressar um divórcio ou um processo de decoupling que já está sendo feito nos últimos 20 anos […] o tarifaço não inaugurou esse movimento, mas ele certamente o acelera.”
Novos acordos ampliam o mapa comercial brasileiro
Desde 2025, ao lado do Mercosul, cinco frentes avançaram: os acordos com a União Europeia, o EFTA (Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia) e Singapura foram fechados, além da abertura de negociações com o Japão e da retomada das tratativas com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia, Vietnã e Indonésia. Com isso, a fatia das exportações brasileiras coberta por acordos comerciais saltou de 12%, em 2024, para 31%.
Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) confirmam a diversificação, com recordes de exportações para 42 países no ano passado — a Alemanha se consolidou como a quarta maior parceira e pretende dobrar as trocas com o Brasil em cinco anos. Essa reorganização já era prevista: a CNI havia projetado que 31,6% das exportações brasileiras aos EUA passariam a enfrentar tarifa de 37,5%, o que empurrou setores inteiros a correr atrás de novos destinos.
Mas a queda de 6,6% nas compras dos EUA foi compensada, sobretudo, pelo avanço da China e da Argentina — hoje o primeiro e o terceiro maiores parceiros comerciais do Brasil. Pequim já absorve quase um terço das exportações brasileiras, e Coelho alerta para o risco embutido nesse número: “Quando você analisa essa pauta, quase 90% está concentrado em quatro produtos: carnes, minério, soja e petróleo. Isso deveria nos assustar, porque se a China desacelerar, o Brasil vai sofrer imensamente.”
Barral pondera que o risco existe, mas vê alternativas: as trocas com outros países asiáticos, como Índia, Indonésia e Vietnã, também crescem e podem abrir novas frentes para as commodities agrícolas brasileiras no futuro.
