O jornal britânico The Guardian publicou nesta terça-feira (14/07) um editorial que acusa o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de usar tarifas comerciais como arma contra a autonomia do Brasil.
O governo americano deve anunciar até esta quarta-feira (15/07) se aplicará novas tarifas ao país, resultado de uma investigação sobre práticas comerciais consideradas injustas pela Casa Branca — que inclui ataques ao sistema de pagamentos Pix.
Segundo o Guardian, a ofensiva de Trump seria uma reação ao fortalecimento da soberania jurídica e digital brasileira. Em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que plataformas como X, de Elon Musk, e Meta, de Mark Zuckerberg, podem ser responsabilizadas por publicações de usuários, obrigando as empresas a remover discursos de ódio e conteúdo antidemocrático — medida tomada após as mentiras online que, segundo o jornal, ajudaram a alimentar a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro em 2023.
Pix e a disputa por soberania financeira
O editorial dedica trecho especial ao Pix, sistema de pagamentos criado pelo Banco Central. Para o Guardian, assim como a Índia fez com sua própria infraestrutura digital, o Brasil criou o Pix para reduzir a dependência de redes controladas por estrangeiros e blindar o sistema doméstico de pressões externas. Na prática, o mecanismo contorna as bandeiras de cartão nos moldes da Visa e da Mastercard, reduzindo os lucros dessas empresas — um dos pontos citados na investigação americana sobre práticas comerciais brasileiras.
A decisão sobre a aplicação de novas tarifas é aguardada para esta quarta-feira (15/07) e pode levar o Brasil da 13ª para a 2ª posição no ranking de países mais tarifados pelos EUA, atrás apenas da China.
Eleições de outubro entram na disputa
O Guardian também conecta o tarifaço à corrida presidencial de outubro, na qual Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecem à frente nas pesquisas. Segundo o jornal, Flávio “é menos carismático que seu pai, mas está baseado no mesmo antiesquerdismo simplista, nas mesmas políticas punitivas de ‘lei e ordem’ e nas mesmas guerras culturais de extrema-direita”.
O editorial classifica como “extremamente audacioso” o pedido feito por Flávio Bolsonaro a Trump para que evite tarifas contra o Brasil até a eleição. O apelo foi formalizado quando o senador foi a Washington participar de audiência pública do USTR e se apresentou como pré-candidato à Presidência.
Já Lula é descrito pelo jornal como um dos políticos “mais bem-sucedidos deste século”: de operário a líder sindical e fundador de partido, ele teria feito da redistribuição de renda “a linguagem da democracia brasileira” — a pobreza extrema no país caiu de 30 milhões de pessoas em 2002 para menos de 7 milhões atualmente. Nos bastidores, a área técnica do governo já trabalha com o cenário de que o tarifaço dificilmente será evitado, mesmo com o discurso público mais otimista do presidente.
