A Anthropic abre nesta quarta-feira (1º) o acesso mundial aos seus modelos de inteligência artificial mais avançados — o Mythos 5 e o Fable 5 — após o governo dos Estados Unidos suspender as restrições de exportação que bloquearam essas tecnologias por quase três semanas.
A decisão reverte um embargo imposto em 12 de junho, quando Washington obrigou a empresa a cortar abruptamente o acesso global a ambos os modelos por razões de segurança nacional.
O bloqueio havia sido imposto de forma abrupta: em 12 de junho, o governo norte-americano determinou que a Anthropic suspendesse imediatamente o acesso ao Mythos 5 e ao Fable 5, seus dois modelos de ponta, sem prazo definido para a retomada.
A primeira flexibilização veio em 26 de junho, quando Washington autorizou o uso do Mythos 5 por um grupo restrito de ciberdefensores e operadores de infraestrutura dos EUA. Agências estatais de cibersegurança da Europa e da Ásia continuavam sem acesso — e a Anthropic não esclareceu se a liberação desta quarta amplia o alcance a esses parceiros estrangeiros.
O movimento faz parte de uma virada na política americana de IA sob Donald Trump. O governo, que historicamente resistia a regulações do setor, passou a adotar controles mais rígidos diante do avanço das capacidades desses modelos — e as restrições de exportação à Anthropic refletem diretamente essa mudança de postura.
Na véspera do anúncio, o diretor da CIA, John Ratcliffe, detalhou em conferência da AWS a reorganização da agência para lidar com IA e classificou esses modelos como “armas nucleares digitais” — declaração que expõe o nível de tensão em Washington em torno das tecnologias que agora voltam a circular globalmente.
Apesar da liberação anunciada, permanecem dúvidas sobre o alcance real da medida além das fronteiras americanas. A Anthropic e o governo dos EUA não confirmaram se órgãos internacionais — especialmente as agências de cibersegurança europeias e asiáticas que ficaram sem acesso nas últimas semanas — poderão utilizar os modelos em suas operações.
O episódio tem raízes em um processo mais longo de tensão entre a empresa e Washington. Semanas antes do bloqueio, Trump havia assinado um decreto permitindo ao governo revisar modelos avançados antes do lançamento — acordo negociado com Google, OpenAI e a própria Anthropic, que estabeleceu o arcabouço regulatório que mais tarde serviu de base para os controles de exportação.
Com a reabertura, a Anthropic retoma a competição global em um mercado onde rivais como OpenAI e Google nunca enfrentaram restrições equivalentes. O episódio, porém, consolida um precedente: modelos de IA de fronteira passaram a ser tratados por Washington como ativos estratégicos, sujeitos à mesma lógica de controle que rege exportações de armamentos e tecnologias de duplo uso.
