O Banco Central divulgou nesta terça-feira (23) a ata da última reunião do Copom e revelou os bastidores de uma decisão controversa: manter o ciclo de cortes da Selic mesmo diante de uma piora nas projeções de inflação para os próximos anos.
A taxa básica de juros recuou de 14,50% para 14,25% ao ano na semana passada — o terceiro corte consecutivo. Para o BC, a queda se justifica porque as “melhores práticas” de política monetária recomendam não reagir integralmente a variações de preços causadas por choques de oferta.
Choques de oferta como argumento central
Na ata divulgada nesta terça, o Copom identificou dois vetores externos como responsáveis pelas pressões sobre os preços: a guerra no Oriente Médio, que impulsionou o petróleo e os combustíveis no mercado global, e os impactos climáticos do El Niño sobre a oferta de alimentos.
O BC definiu esses eventos como choques de oferta — perturbações inesperadas que alteram, de forma abrupta, a disponibilidade ou o custo de bens e serviços. Segundo o comitê, as incertezas persistem tanto sobre os efeitos já materializados do conflito armado quanto sobre a extensão futura do El Niño, ainda não completamente incorporada nas projeções.
Na semana passada, o Copom cortou a Selic pela terceira vez consecutiva — de 14,50% para 14,25% ao ano —, e a ata revela os bastidores de uma decisão que desafiou a piora do cenário inflacionário. Saiba mais sobre o corte da Selic e os detalhes do Copom.
Alinhamento com as expectativas do mercado
O segundo argumento do BC foi de natureza técnica: trajetórias de Selic muito discrepantes das previstas pelo Boletim Focus poderiam induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros, com efeitos que acabariam prejudicando a própria convergência da inflação à meta.
Dois dias antes da reunião, o Boletim Focus já apontava inflação de 5,30% para 2026 pela 14ª semana consecutiva — exatamente o cenário que o BC citou ao justificar sua opção por não divergir das expectativas do mercado. Veja as projeções do Focus para a inflação de 2026.
Convergência à meta projetada apenas para 2028
O Copom avaliou diferentes cenários com combinações variadas de pausas e retomadas no ciclo de cortes e concluiu que trajetórias alternativas permitem que a inflação convirja para a meta no primeiro trimestre de 2028 — horizonte que passa a valer a partir da próxima decisão do comitê.
O sistema de metas de inflação é o parâmetro central das decisões do Copom: quando as projeções estão em linha com as metas, há espaço para cortar juros; quando estão acima, a tendência é manter ou elevar a Selic. Ao admitir convergência apenas em 2028, o BC sinaliza que o afrouxamento monetário será gradual e sujeito a revisões conforme o comportamento dos choques externos.
Para a população mais pobre — a mais vulnerável às pressões inflacionárias —, a decisão carrega um sinal dúbio: juros menores facilitam o acesso ao crédito, mas a inflação elevada corrói o poder de compra. A eficácia da estratégia do BC dependerá, em grande parte, da evolução do conflito no Oriente Médio e das condições climáticas nos próximos meses.
