O diretor de Política Econômica do Banco Central, Paulo Picchetti, foi a público nesta quinta-feira (25) para defender o corte da Selic de 14,5% para 14,25% ao ano, aprovado pelo Copom na semana passada.
Ele usou uma analogia direta: dobrar ou triplicar a taxa básica de juros não teria reaberto o Estreito de Ormuz, fechado durante o conflito entre Estados Unidos e Irã e principal vetor da pressão inflacionária recente.
O argumento central é que a política monetária não deve reagir integralmente a choques de oferta — eventos externos que pressionam preços mas são insensíveis à variação dos juros.
Para ilustrar a natureza dos choques de oferta, Picchetti recorreu à metáfora de um hematoma: assim como uma contusão desaparece com o tempo sem intervenção cirúrgica, a pressão inflacionária gerada por eventos externos — como o fechamento do Estreito de Ormuz ou o El Niño — tende a se dissipar por conta própria, sem que a política monetária precise intervir de forma excessiva.
O fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo, ocorreu nos últimos meses em razão do conflito entre Estados Unidos e Irã. O evento foi um dos principais vetores de pressão sobre os preços dos combustíveis no Brasil, afetando tanto a inflação corrente quanto as expectativas futuras.
Horizonte relevante e a menção ao primeiro trimestre de 2028
O diretor reiterou que o Banco Central persegue o chamado horizonte relevante da política monetária: a meta de inflação de 3%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), projetada para 18 meses à frente — o que, neste Copom, corresponde ao ano fechado de 2027.
Picchetti explicou por que o comunicado oficial mencionou o primeiro trimestre de 2028, período que ultrapassa o horizonte relevante. Foi uma situação excepcional: as projeções recuavam de forma mais acentuada naquele intervalo, justamente pela dissipação dos efeitos do conflito no Irã e do El Niño sobre a economia brasileira.
A ata do Copom, divulgada na terça-feira, já havia estabelecido o argumento que Picchetti reiterou nesta quinta: a política monetária não deve reagir integralmente a variações de preços causadas por choques de oferta externos.
“Foi uma situação especial que levou a gente a chamar a atenção a isso. Ali era um hematoma desaparecendo. A gente não está alongando o horizonte relevante, não pretendemos fazer isso”, afirmou o diretor.
Terceiro corte consecutivo da Selic
Na semana passada, o Copom reduziu a Selic pela terceira vez seguida, levando a taxa a 14,25% ao ano. A reabertura do Estreito de Ormuz após o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã foi um dos fatores que consolidaram as expectativas de corte no mercado.
O sistema de metas de inflação orienta as decisões do Banco Central: quando as projeções estão alinhadas com a meta, a instituição tem espaço para reduzir os juros; quando estão acima, o Copom tende a manter ou elevar a Selic.
O movimento de corte sinaliza que o BC avalia que os choques de oferta responsáveis por manter as projeções elevadas estão em processo de dissipação. A leitura da autoridade monetária é de que a inflação converge para a meta de 3% dentro do horizonte relevante de 18 meses, sem necessidade de aperto adicional da política monetária.
