O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou na quarta-feira (5/8) o quarto corte consecutivo na Selic, reduzindo a taxa de 14,25% para 14% ao ano. A decisão foi unânime e saiu após as 18h.
O novo patamar é o menor da taxa básica de juros desde março de 2025 — pouco mais de um ano atrás. Ainda assim, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, a taxa real do Brasil é a maior do mundo, segundo levantamento da MoneYou. A Selic é o principal instrumento do Banco Central para conter a inflação, com impacto mais forte sobre a população de baixa renda.
Guerra no Oriente Médio e preço do petróleo
A decisão de cortar os juros se manteve mesmo com a retomada do conflito no Oriente Médio, que pressionou o preço do petróleo internacional e acende o alerta para um possível repasse aos combustíveis no Brasil — canal direto de contaminação da inflação. No domingo (2/8), porém, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu novas rodadas de negociação com o Irã — movimento que ajudou a aliviar parte da tensão nos mercados. Na quarta-feira (5/8), o republicano foi além: afirmou que um acordo sobre o Estreito de Ormuz, importante rota marítima da região, poderia ser anunciado ainda na quarta ou na quinta-feira (6).
Irã e Omã avançavam em negociações para reabrir a via navegável. A proposta prevê que navios entrem no Golfo Pérsico por uma rota controlada pelo Irã e saiam por uma rota controlada por Omã, com cobrança de taxas de serviço para garantia de segurança e preservação do meio ambiente marítimo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, confirmou na terça-feira (4/8) que as tratativas buscavam “estabelecer rotas marítimas seguras de entrada e saída”. Na quarta-feira (5/8), o Irã anunciou que havia chegado a um acordo com o Omã sobre as coordenadas geográficas da nova rota de passagem e a administração conjunta do Estreito, com a declaração conjunta em fase final de revisão e redação. Baghaei ressalvou, porém, que um acordo bilateral não seria suficiente, por si só, para garantir a segurança na passagem marítima, diante do bloqueio americano a portos iranianos e da oposição de Washington à cobrança de pedágios iranianos. O porta-voz também negou que o Irã tivesse sessões de negociação direta com os Estados Unidos — declaração que contraria as afirmações mais recentes do governo Trump.
A perspectiva de desfecho positivo se refletia nos mercados globais na quarta-feira (5/8): as bolsas europeias operavam majoritariamente em alta, e os índices asiáticos registravam ganhos expressivos, com o Nikkei japonês subindo 3,66% e o Kospi da Coreia do Sul avançando 3,76%. Já na quinta-feira (6/8), com o petróleo operando em alta em meio à persistência das incertezas sobre o alcance real do acordo, os mercados asiáticos fecharam mistos: o índice de Xangai (SSEC) avançou 0,6%, enquanto Nikkei (-0,93%), CSI 300 (-0,2%), Hang Seng (-1,5%) e Kospi (-4,58%) recuaram.
A expectativa da decisão já movia outros mercados antes mesmo da reunião do Copom: o dólar recuou para cerca de R$ 5,07 na segunda-feira (3/8), enquanto investidores precificavam o corte de juros e acompanhavam os sinais de trégua entre Washington e Teerã, como mostrou o Tropiquim em matéria sobre o câmbio. Na quarta-feira (5/8), a moeda abriu em nova queda, de 0,36%, cotada a R$ 5,1129 por volta das 9h. Na manhã de quinta-feira (6/8), o dólar seguia em baixa, com recuo de 0,24%, cotado a R$ 5,1160 próximo às 9h. Com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tendo mantido os juros americanos inalterados na faixa de 3,50% a 3,75% na semana passada, as atenções dos investidores se voltavam para a decisão do Banco Central brasileiro.
Como o Banco Central decide os juros
Para calibrar a Selic, o Copom segue o sistema de metas de inflação: quando as projeções estão alinhadas ao objetivo, o colegiado tem espaço para reduzir os juros; quando ficam acima, tende a manter ou elevar a taxa. Desde o início de 2025, vigora o modelo de meta contínua, fixado em 3%, considerado cumprido se a inflação variar entre 1,5% e 4,5% ao ano.
O reforço para o corte veio também do Boletim Focus, que na segunda-feira (3/8) registrou a quinta redução seguida nas estimativas de inflação para 2026 — movimento que levou parte do mercado a apostar em um afrouxamento ainda maior da Selic ao longo do ano, segundo levantamento do Tropiquim. A projeção predominante é de que a Selic encerre 2026 em 13,75% ao ano, o que pressupõe mais um corte na próxima reunião, prevista para setembro.
Cautela apesar do corte
Em seu comunicado, o Copom reconheceu que o cenário externo “exige cautela” dos países emergentes, diante dos conflitos no Oriente Médio e das incertezas sobre a política monetária das economias avançadas. O comitê destacou ainda que a redução dos juros contribui para reduzir oscilações na atividade econômica e estimular a geração de empregos. O colegiado também reforçou que as próximas decisões sobre os juros dependerão da evolução do cenário econômico e dos riscos para a inflação.
Na ata da reunião, divulgada na terça-feira (11/8), o Banco Central detalhou que a inflação para os consumidores desacelerou nos últimos meses, mas permanece acima das metas fixadas. O documento aponta dois vetores de pressão: os gastos públicos, que estimulam a demanda, e choques de oferta, sobretudo a alta do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio. Diante desse cenário, a autoridade monetária não sinalizou o que fará na próxima reunião do Copom, marcada para 15 e 16 de setembro, deixando a decisão em aberto até o encontro — a ser tomada com base nos indicadores mais recentes da economia.
O economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, avaliava que o cenário permitia dar seguimento ao ciclo gradual de redução, mas ponderava que o Copom deveria adotar cautela na comunicação e evitar comprometimento com os próximos passos da política monetária. “A ausência de resolução do conflito no Oriente Médio e o ambiente externo muito incerto reforçam a necessidade de prudência na condução dos juros”, disse.
Já o economista do Santander Marco Antonio Caruso destacava que os dados recentes de inflação reforçavam a decisão: o IPCA-15 de julho “surpreendeu significativamente para baixo”, com composição mais benigna e sinais encorajadores nos indicadores de núcleo acompanhados de perto pelo Banco Central.
Na quinta-feira (6/8), o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, avaliou que, mesmo após o corte, os juros seguem em patamar muito restritivo e continuam a pressionar a inadimplência e o orçamento das famílias. “A gente tem visto todos os indicadores de mercado piorando de forma muito relevante. E o principal produto do banco é entregar crédito para a sociedade. Quando o crédito passa a ter uma inadimplência alta, todos nós perdemos com isso”, afirmou. Para o executivo, é com juros em patamares mais baixos que as famílias tomam boas decisões de financiamento e as empresas conseguem investir com mais qualidade.
Ainda assim, Maluhy Filho disse acreditar que há espaço para mais um corte na próxima reunião do Copom, marcada para setembro. “Juro nesse patamar ainda é muito restritivo”, disse. O executivo avaliou que o comunicado do Banco Central foi conservador ao deixar em aberto a possibilidade de um afrouxamento adicional — sinalizando prudência sem fechar a porta ao próximo passo. As declarações vieram um dia após o Itaú divulgar seus resultados do segundo trimestre de 2026: lucro de R$ 12,4 bilhões, alta de 7,8% em relação ao mesmo período de 2025, com carteira de crédito de R$ 1,5 trilhão.