O IPO da SpaceX transformou Wall Street em mais um campo de batalha da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Ao captar US$ 75 bilhões no mercado financeiro, a empresa de Elon Musk passou a contar com capital privado para financiar projetos de satélites, inteligência artificial e infraestrutura orbital.
Enquanto Pequim avança com empresas estatais e planejamento centralizado, a SpaceX representa o modelo oposto: investidores privados direcionando recursos a tecnologias de interesse estratégico nacional.
A disputa vai além do espaço — e agora envolve também quem controla o dinheiro que financia essa corrida.
A corrida espacial do século XXI opõe dois modelos distintos de financiar tecnologias estratégicas. A China avança com empresas estatais, planejamento centralizado e investimentos públicos de longo prazo. Os EUA combinam orçamento federal — a Nasa receberá US$ 24,4 bilhões em 2026 — com capital privado crescente, sendo a SpaceX o caso mais emblemático dessa transformação.
Para o professor Diogo Cortiz, da PUC-SP, especializado em tecnologia e inovação, a empresa de Musk ocupa uma posição singular porque reúne, sob o mesmo grupo, as três frentes mais disputadas entre as duas potências: exploração espacial, redes de satélites e inteligência artificial.
Domínio em lançamentos e satélites
Os números de 2025 ilustram a vantagem americana. Segundo levantamento do astrofísico Jonathan McDowell, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, os EUA realizaram 181 lançamentos orbitais no ano — quase o dobro dos 92 registrados pela China. A SpaceX, sozinha, respondeu por 170 dessas missões, número superior ao de qualquer país individualmente.
A dominância se estende à órbita terrestre. A rede Starlink concentrava, ao final de 2025, cerca de dois terços de todos os satélites ativos do planeta — aproximadamente 10 mil dos 14,1 mil equipamentos em operação. No mesmo período, os EUA colocaram em órbita 3.267 satélites de comunicação; a China, apenas 195.
Para o professor Álvaro Machado Dias, da Unifesp, projetos como o Starship, data centers orbitais e infraestrutura lunar exigem uma escala de recursos que extrapola o que investidores privados tradicionais conseguem sustentar — o que explica o apelo ao mercado de capitais. A estreia da SpaceX na Nasdaq foi marcada por volumes históricos: avaliada acima de US$ 2 trilhões, a operação chegou a sobrecarregar os próprios sistemas de negociação da bolsa diante do volume extraordinário de ordens.
A resposta chinesa
Pequim não está parada. Para reduzir a vantagem americana, a China concentrou esforços em dois grandes programas: a Guowang, constelação estatal planejada para aproximadamente 13 mil satélites, e a Qianfan, iniciativa comercial com mais de 1.296 unidades previstas.
Além da escala industrial, Pequim conta com uma vantagem geopolítica relevante fora do círculo de aliados tradicionais dos EUA. O país vem combinando capacidade produtiva, preços subsidiados e relações diplomáticas construídas pela iniciativa Cinturão e Rota — megaprojeto de infraestrutura e comércio com mais de 150 países parceiros, com maior presença na África, Ásia e América Latina.
Essa capilaridade internacional, porém, não elimina os obstáculos enfrentados pelas empresas chinesas em mercados ocidentais. Restrições geopolíticas e regras de exportação adotadas por aliados históricos dos EUA dificultam o acesso a contratos comerciais em diversas regiões, segundo especialistas ouvidos pelo g1.
Para Franco Granda, analista sênior da PitchBook, a competição tende a se intensificar à medida que os dois países avançam em seus programas lunares. E a SpaceX já sinalizou que pretende ir muito além do ritmo atual: a empresa comunicou ao regulador americano de aviação a meta de atingir 10 mil lançamentos por ano nos próximos cinco anos — escala que ampliaria ainda mais a distância em relação a qualquer concorrente, incluindo a China.
