A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China ganhou mais uma frente: a fusão nuclear. Com mais de € 13 bilhões em investimentos privados acumulados até o fim de 2025, o setor atrai governos, bilionários e gigantes do Vale do Silício em busca de energia abundante e sem emissões de carbono.
A Agência Internacional de Energia estima que o mercado global de fusão pode ultrapassar US$ 350 bilhões até 2050 — impulsionado, em parte, pela demanda crescente de eletricidade gerada pelos data centers de inteligência artificial.
77 empresas, dois modelos opostos
Atualmente, 77 companhias em todo o mundo trabalham para levar a fusão nuclear ao mercado comercial. A maioria — 42 — está nos Estados Unidos, enquanto a China concentra 8 e o Reino Unido, 6. Na Alemanha, 4 startups disputam espaço no setor.
O contraste vai além dos números. Nos EUA, o avanço é puxado por capital privado: o Google apoia a TAE Technologies há mais de dez anos com centenas de milhões de dólares e engenheiros dedicados ao desenvolvimento tecnológico. A empresa também investiu na Commonwealth Fusion Systems (CFS) e firmou contrato de compra de eletricidade. A Helion Energy tem Sam Altman — CEO da OpenAI — como apoiador e contrato firmado com a Microsoft.
Na China, o modelo é inverso: é o Estado quem financia diretamente o setor. O país concentra cerca de um terço de todos os investimentos privados globais em fusão e já abriga unicórnios — empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.
O marco de 2022 e o projeto ITER
Um ponto de inflexão veio em 2022, quando pesquisadores nos Estados Unidos conseguiram, pela primeira vez, extrair mais energia de uma reação de fusão do que foi necessário para iniciá-la. A conquista validou décadas de pesquisa e acelerou o interesse do mercado.
O projeto internacional ITER, construído no sul da França com a participação de 35 países — incluindo EUA, China, Rússia e nações da UE —, deve entrar em operação entre 2034 e 2036. Iniciado em 2007, acumulou atrasos sucessivos e aumento expressivo de custos.
Ao contrário da fissão nuclear convencional, a fusão apresenta risco de acidente mais baixo e gera resíduos radioativos com menor impacto à saúde e ao meio ambiente — tornando-a candidata atrativa à descarbonização da matriz energética global.
A Alemanha também entra na disputa. O governo incluiu a fusão nuclear entre as seis tecnologias-chave para o futuro do país e prometeu mais de € 2 bilhões em investimentos públicos na legislatura atual. Uma das apostas locais é a startup Focused Energy, fundada em 2021 pelo professor Markus Roth, da TU Darmstadt, que aposta em reatores a laser — abordagem diferente da usada pela maioria das concorrentes globais.
Para o setor avançar, será preciso resolver desafios que vão além da física. “Precisamos aprender, na Alemanha, a construir sistemas a laser como construímos carros — em linha de produção, mas com alta precisão”, afirmou Roth. O desenvolvimento de cadeias de fornecimento rápidas e escaláveis é apontado como um dos maiores obstáculos à viabilização comercial da tecnologia.
A divisão entre capital privado americano e planejamento estatal chinês que define a corrida espacial se repete agora na fusão nuclear — um padrão já mapeado pelo Tropiquim ao analisar como a SpaceX levou Wall Street para o centro da disputa tecnológica com a China.
A fusão é mais um front de uma competição mais ampla por setores estratégicos do século XXI. Semanas atrás, a Coreia do Sul comprometeu US$ 576 bilhões para liderar chips de IA — sinal de que nações apostam trilhões para não ficarem de fora das tecnologias do futuro.
Ainda assim, especialistas alertam que mesmo um desenvolvimento tecnológico bem-sucedido pode não ser rápido o suficiente para que a Europa cumpra suas metas climáticas. As startups reconhecem estar longe de ter os recursos financeiros necessários para o longo prazo.
