A SpaceX comunicou a investidores em potencial que seu conselho de administração não precisará ter maioria de diretores independentes após a abertura de capital. A informação consta de um trecho do pedido de IPO analisado pela Reuters e reforça como Elon Musk pretende manter o controle absoluto da empresa mesmo após a listagem em bolsa.
A fabricante de foguetes e tecnologia de inteligência artificial só será obrigada a manter um comitê de auditoria composto inteiramente por independentes — dispensando os comitês de remuneração e nomeação que seguem esse mesmo critério.
Governança fora do padrão do mercado
A estrutura anunciada coloca a SpaceX em uma fatia bem pequena do mercado americano. Um estudo de 2024 da National Association of Corporate Directors mostrou que apenas 3% a 4% das empresas do índice Russell 3000 operam com insiders na maioria do conselho — exatamente o modelo que a SpaceX pretende adotar.
A notícia se encaixa em um contexto mais amplo: a Reuters já havia reportado que Musk e um grupo restrito de sócios detêm ações com direito a voto suficientes para superar os demais investidores, garantindo o controle mesmo em caso de conflito de interesses.
Meta como precedente na Nasdaq
O documento cita a Meta como referência. A empresa de Mark Zuckerberg também possui estrutura de voto majoritário concentrado no CEO, o que lhe confere o status de “empresa controlada” pelas regras da Nasdaq. Ainda assim, a Meta optou por manter a maioria de seus diretores como independentes — algo que a SpaceX não está obrigada a fazer, mas pode escolher.
David Larcker, professor da Universidade de Stanford especializado em governança corporativa, avalia que o status de empresa controlada oferece mais flexibilidade para estruturar acordos salariais. O conselho da SpaceX será responsável por supervisionar remunerações potencialmente bilionárias para o próprio Musk, segundo partes relacionadas do documento.
O fantasma da Tesla paira sobre o IPO
A estratégia de governança da SpaceX lembra de perto a da Tesla, e isso não é por acaso — nem é necessariamente um elogio. Embora a montadora elétrica indique formalmente que a maioria de seus nove diretores é independente pelos padrões da Nasdaq, críticos apontam há anos que o conselho permanece próximo demais de Musk.
Entre os membros estão o irmão do CEO, Kimbal Musk, e o ex-diretor de tecnologia JB Straubel. Esse cenário alimentou uma série de contestações jurídicas. Em 2024, um juiz rescindiu o pacote de remuneração de US$ 56 bilhões concedido a Musk em 2018, alegando falta de independência do conselho na aprovação do valor. A decisão foi revertida em dezembro do mesmo ano.
Para investidores que acompanham o IPO da SpaceX, o histórico da Tesla levanta uma questão central: em uma empresa onde o fundador controla os votos e indica o perfil do conselho, quem de fato fiscaliza as decisões de remuneração e estratégia? A resposta, por ora, parece ser: principalmente o próprio Musk.
