O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou na quarta-feira (10) que “ama a inflação” — horas após dados oficiais mostrarem que os preços no país subiram 4,2% em maio, o ritmo mais acelerado em três anos.
O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) registrou o terceiro mês consecutivo de alta, impulsionado principalmente pelos custos de energia em meio à guerra dos EUA e Israel no Irã.
O galão de gasolina atingiu US$ 4,15 nas bombas americanas — 39% acima do valor registrado em fevereiro, quando Trump iniciou os ataques contra Teerã.
A declaração foi feita na Casa Branca, à margem da divulgação dos dados do Escritório de Estatísticas do Trabalho (BLS). “Eu amo isso. Os números foram ótimos. Sabe o que eu realmente amo? Eu amo a inflação”, afirmou Trump.
Mais tarde, o presidente tentou recuar. Em entrevista ao New York Post, Trump disse que seus comentários “foram tirados de contexto” e que quis dizer apenas que a inflação está “muito mais baixa do que o previsto” para um período de guerra.
Guerra fecha o Estreito de Ormuz e empurra preços de energia
A raiz da pressão inflacionária está no conflito: desde que os EUA lançaram ataques contra o Irã em fevereiro, o país fechou o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde transita cerca de um quinto de todo o petróleo e gás do mundo. O resultado foi a explosão dos custos de energia.
As contas de gás e eletricidade estavam quase 25% mais altas em maio do que um ano antes, com a gasolina pesando mais no orçamento americano. O petróleo Brent já havia rompido US$ 111 após Trump ameaçar “aniquilar” o Irã e segue bem acima dos níveis anteriores ao conflito, alimentando diretamente a alta nos preços ao consumidor.
Trump prometeu que a inflação vai “cair como uma pedra” assim que a guerra terminar. Economistas alertam, porém, que mesmo com uma resolução rápida, pode levar até 2027 para que o fluxo normal de bens pelo estreito seja restabelecido.
O comentário entusiasmado com o aumento dos preços virou munição política imediata para a oposição. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, escreveu no X: “O desprezo dele por vocês não tem limites.” A inflação persistente se torna um passivo eleitoral relevante: pesquisas apontam a economia como uma das principais preocupações dos americanos antes das eleições legislativas de novembro.
Fed sob pressão: Kevin Warsh enfrenta primeiro teste sobre juros
A alta dos preços amplia o dilema do Federal Reserve. Kevin Warsh, novo presidente do banco central americano, enfrenta sua primeira decisão sobre taxas de juros na próxima semana. Com a inflação em 4,2% — o dobro da meta de 2% do Fed —, a pressão por um aumento das taxas cresce.
As taxas estão atualmente entre 3,5% e 3,75%. Economistas esperam que o banco central mantenha esse patamar no próximo mês, mas alertam que evidências adicionais de inflação persistente podem forçar uma alta. Isaac Stell, da Wealth Club, afirma que elevar os juros é “a conclusão mais lógica” diante dos dados de emprego e inflação combinados.
No fim de maio, o parlamento iraniano já havia advertido que a gasolina poderia chegar a US$ 6 caso o impasse continuasse. O Irã chegou a chamar Trump de “blefe” e avisar que o preço seria problema dos americanos — com o galão já a US$ 4,15, a trajetória vai nessa direção.
